Em Os Maias.

O ator Matheus Nachtergaele não se considera um sujeito supersticioso. Nem um pouco. Só não abre mão de vestir branco toda sexta-feira. Ou de manter um dente de alho no umbral da porta de casa para evitar mau-olhado. “Outro dia, vi um gato preto passar bem na minha frente. Sabe o que fiz? Virei o rosto e ele passou do meu lado”, diverte-se. Na verdade, Matheus se define como um “ateu com presságios”. Dos últimos que teve, cita justamente o de fazer o Pai Helinho de Da Cor do Pecado, que marca sua estréia em novelas. “Acredito muito nos sinais da vida que somos capazes de ler e interpretar. Se você estiver atento ao que acontece ao seu redor, tudo dá certo”, garante.

Aos 34 anos, Matheus só aceitou fazer a novela porque o convite partiu do autor João Emanuel Carneiro. Os dois se conheceram em 1998, quando o ator fez Central do Brasil, dirigido por Walter Salles e escrito por João Emanuel. Depois disso, voltaram a trabalhar juntos em Extraviado e O Primeiro Dia. Desde que despontou na tevê, como o travesti Cintura Fina de Hilda Furacão, Matheus tem sido assediado para debutar no gênero. Cauteloso, preferiu atuar em produções de menor duração, como A Muralha e O Auto da Compadecida. “Tenho plena confiança no João. Estaria fazendo a novela independentemente do papel que me propôs. Ele nunca me colocaria numa roubada”, destaca.

De fato, o Pai Helinho é um dos mais carismáticos de Da Cor do Pecado. Prova disso é que, todo santo dia, o ator não sai de casa sem ouvir alguém repetindo o bordão “pepepeô”, que o falso vidente pronuncia sempre que incorpora um espírito qualquer. Trambiqueiro, Helinho promete de tudo um pouco aos clientes: desde curar uma simples enxaqueca até trazer a pessoa amada em três dias. Entre as vítimas favoritas do falso pai-de-santo estão viúvas desoladas, como a fogosa Tancinha, de Vanessa Gerbelli, que o procurou para ter notícias do finado marido, o ciumento Feitosa. “Perdi o medo que tinha de novela. Descobri que a flor pode nascer em qualquer lugar. Até mesmo na voracidade da telenovela”, observa.

P

– Você costumava se referir às novelas como “naus sem rumo”. Ainda pensa assim?

R

– Eu acho que muitas delas são naus sem rumo mesmo. Só entrei nessa porque sabia que ela teria um rumo. Sei que ela tem um comandante vigoroso no leme. Ele pode até ser um comandante de primeira viagem, mas está no comando da embarcação. É claro que o fato de a novela ter feito sucesso garantiu o leme. A gente sabe que, se ela não tivesse dado certo, talvez estivesse à deriva. E esse sempre foi o meu medo.

P

– Pode-se dizer que, antes de fazer Da Cor do Pecado, você tinha um certo preconceito em relação ao gênero?

R

– Tinha sim. O ambiente de Da Cor do Pecado não é o ambiente doentio que algumas pessoas me descreveram. E que também me fizeram adiar a experiência. Alguns diziam: “Ah, você é esperto porque só faz o filé mignon da televisão. Quero ver você numa novela, fazendo aquelas cenas horrorosas e agüentando aquela gente mal-humorada…”. Sinceramente, não é isso que eu estou vendo. Primeiro, porque todas as cenas da novela são realmente boas. Todas as cenas de todos os personagens. E, segundo, porque como são poucos personagens, todos os atores estão felizes, satisfeitos… Hoje, estou convencido de que é possível fazer um trabalho bonito também em novela.

Tantas cenas durante tanto tempo. Felizmente, a novela é também a primeira de um ótimo autor, com fôlego suficiente para fazer um ótimo trabalho. Eu realmente confirmo o que já disse: a flor pode nascer em qualquer lugar. Até na voracidade da telenovela. Vida de artista

Matheus Nachtergaele tinha apenas oito anos quando se interessou pela arte de representar. Mais especificamente, pela novela Escrava Isaura, a primeira a que assistiu do início ao fim. O motivo de tanto fascínio tem nome e sobrenome: Lucélia Santos. “Foi a primeira vez que fiquei fã de alguém”, recorda ele. Mais tarde, porém, prestou vestibular para Veterinária.

Anos depois, já cursando Artes Plásticas na FAAP, foi encorajado por uma amiga a fazer teste para a companhia de Antunes Filho. Às vésperas de encenar Paraíso Zona Norte, foi cortado pelo diretor. “Ele disse que eu era ansioso demais. Quase pirei”, recorda.

Desiludido da vida, Matheus resolveu morar na terra natal de seu pai, o engenheiro Jean Pierre Leon François Nachtergaele. Na Bélgica, pensou em estudar teatro ou trabalhar com quadrinhos. Durante um ano, porém, cantou em boates de Bruxelas e Paris. “Lá em casa, tem sempre uma cigarra na família”, brinca.

De volta ao Brasil, ingressou na Escola de Artes Dramáticas e montou o grupo Teatro da Vertigem. “Se não fosse ator, seria veterinário. Adoraria ganhar a vida como cinegrafista da National Geographic, estudando espécimes raros”, sonha.

Do teatro, Matheus logo migrou para o cinema e a tevê. A atuação como o travesti Cintura Fina em Hilda Furacão valeu o prêmio de ator revelação da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte. “Como sou muito crítico, prêmios amenizam a desconfiança que tenho do meu trabalho”, exagera.