Quando eu ainda vivia lá no Vale do Iguaçu, em União da Vitória, muitas vezes este Iguaçu, com suas cheias-pesadelo me perturbou, me irritou. Então, certo dia, remei rio acima, rumo às nascentes, e vim parar em Curitiba, onde também estava a moça eleita do meu coração, Maria Teresa, minha esposa.

De uns meses para cá, Iguaçu novamente me incomoda. A Avenida Iguaçu. Explico: a reconstrução dessa avenida fez com que o seu tráfego fosse grandemente desviado para a Visconde de Guarapuava – por si só já bastante engarrafada. Nos “engarrafamentos” da sociedade humana, dentre os quais o de trânsito é talvez o mais comum, humano também é o seu próprio bagaço…

Um corso-trânsito, barulhento, bruto e impiedoso já que meses rola sob nossa janela. E se não cuidarmos, lá na rua, rola sobre nós também. E o pior pedaço é aquele ante o Shopping Curitiba, esquina Visconde e Brigadeiro Franco. Uma correnteza de rodas, motores, latarias e um infernal barulho. Se não o Iguaçu-rio, então a Iguaçu-avenida transborda para a Visconde. Cheias como as do Nilo trazem nutrientes às margens. Mas enxurradas de trânsito trazem também entulhos. Maus condutores, maus pedestres.

Sempre o fator humano…

Para que o trânsito de Curitiba melhore em seu geral, sacrifícios são necessários. Como por exemplo o atual sobretráfego na Visconde por motivo dos trabalhos na Iguaçu. Esse, um incômodo passageiro, sequer seria pesado de suportar, não fossem os desrespeitos aqui sempre já cometidos. Na torturada Visconde, estacionar errado não é novidade. E em todas as madrugadas tem de se ouvir carros com altíssimo som ligado e com os pneus rinchando em criminosa velocidade.

É o motorterrorismo que nos aflige. Devido a esse tumulto, para os moradores do Edifício Brasão, esquina da Visconde e Brigadeiro, a situação ficou particularmente pesada. Sair e entrar na garagem do prédio é uma complicada, enervante, temeridade.

E a essas dificuldades somou-se agora mais um fator. Há cerca de um mês foram mudados os semáforos para pedestres da esquina da Visconde de Guarapuava com Brigadeiro Franco, pista direita, para o meio do quarteirão. A passagem está agora à entrada da Visconde do Shopping Curitiba. Clara e visivelmente sinalizada por placas de advertência, uma bateria de semáforos e respectivas faixas de pedestres. E desde o primeiro dia aqui está o policiamento do Diretran. O tempo de luz verde para o pedestre é até um pouco maior do que nesses sinaleiros costuma ser. Mas poderiam ter alguns segundos a mais.

Aquele que está viajando num automóvel se transporta incomparavelmente mais rápido e mais longe do que o outro, que vai a dois pés somente. Então por que, nos semáforos, o tempo de luz verde para o caminhante é tão injusta e inquietantemente reduzido? E por que ele precisa tolerar que os carros “atrasados” continuem passando no sinal fechado para eles, os condutores, roubando-lhe preciosos segundos do seu verde tempo-direito de passagem? Não é nem preciso ser idoso para ali passar por apertos, perigos e situações humilhantes, enquanto em carreira ou aos pulos trata de pôr-se a salvo. Porque a horda seguinte de carros já se lança sobre ele, sem dó nem cuidado. Deve ele ainda também contar com buzinadas e xingamentos, por ousar obstruir a gloriosa marcha motorizada da civilização. Observe, caro leitor: em cada semáforo de pedestre há sempre duas luzes. Mas também dois pesos. O mais pesado, ameaçador, passa. O mais leve cede. Precisa preservar seu esqueleto…

Julgando-se os condutores pelo valor e classe dos seus veículos, uma maioria deles não poderia cometer tais erros. Carros novos e caros estão nesse comboio de infratores. De acordo com o status aqui reinante, injustamente se imagina que algo assim é mais para condutores daquelas velhas ferrugens, anos sessenta ainda andando… Então, medindo-se de acordo com um poder aquisitivo mais elevado, seria de se esperar que ali, na respectiva cabeça, houvesse também um grau de cultura mais alto…

O bípede humano, comum e corrente, quando se alça de pedestre-de-chão a pedestre-de-acelerados, geralmente essa promoção não lhe faz bem. E o resultado imediato é tornar-se ele um soberbo prepotente sobre rodas, um “saiam da frente!”. E o outro, aquele que passa a vida transportando-se a pé-dois, sem rodas, por seu lado também parece desenvolver uma reação como que roncorosa contra os andantes-motorizados. E a sua arma é perturbar, obstruir, pôr o pé no caminho daquele que vai ao volante…

É a perene e recíproca humana maldade neste mundo. Curitiba. Hoje largamente famosa como capital de primeiro mundo. Título merecido. Mérito de uma determinada faixa, culta e responsável, da população e de dirigentes municipais de ampla e clara visão. O espírito de ordem e conservadorismo de seus velhos pioneiros aqui ainda sobrevive. O progresso com ordem.

Porém, infelizmente, sempre existe um porém…

Alarmante é constatar que a cada dia mais os derradeiros bolsões de civilidade que ainda resistem são atropelados por um novo clima humano (?), sempre mais bruto. E não se pode pôr toda a culpa nas costas da crise econômico-social que infecta a nação. É como se fosse uma degeneração não apenas social, mas também humana, espiritual e orgânica, e que agora se manifesta em rompantes de inaudita maldade. Nem tampouco serve usar aquela velha e gasta desculpa: “Ora, é uma nação ainda muito jovem. A educação virá com o tempo”. Quinhentos anos de existência não é pouco tempo. E ninguém é jovem demais para fazer errado conscientemente. Além do mais, as correntes imigratórias que para cá vieram, antigas e já formadas culturas, trouxeram junto consigo, como contribuição e exemplo, positivos costumes de ordem, valores e respeito. E disso tudo nada restou, nada se aproveitou?

Essa nova localização da passagem para pedestres, na Visconde, no meio da quadra, poderá se revelar uma muito boa solução. Mas por ora só funciona a contento e sem total risco de vida enquanto lá está o dedicado pessoal do Diretran.

Na ausência deles, atravessar a avenida, na faixa de pedestre e sob o aval da luz verde-pedestre, é mortal temeridade. Arriscar o mesmo em tardias horas, nem pensar. Porque na madrugada a via pertence aos “rachas”. Também o bom condutor corre riscos ante o novo semáforo da Visconde. Atendendo ao sinal vermelho freia, corretamente. Atrás dele vem outro, que não freia. O desagradável acontece e os prejuízos vêm junto. Dias passados assisti acontecer um caso exatamente assim.

Os policiais de trânsito aqui na Visconde postados cumprem a sua dura e estafante tarefa de maneira irrepreensível. Perfeitos maestros. E tudo poderia funcionar como uma harmoniosa sinfonia. Mas a parte inculta dos motoristas e pedestres não quer executar nenhuma pastoral, só a caótica. Evidentemente há condutores de carros e passantes a pé que se atêm rigorosamente às regras de trânsito, e se movem ou se detêm no momento certo. É uma lástima que esses não sejam mais numerosos. Por outro lado, basta uma parelha de um motorista e um pedestre incultos para pôr tudo a perder. Em muitos casos, infratores ambos. Pedestre e motorista. Quando os dois se chocam, incômodos e problemas para cada lado. Está a diferença na diferença de dureza entre pára-choque e joelho. Nisso, aqui motoristas e pedestres costumam se igualar:; ignorância daltônica ante a escala de cores do semáforo. Desgastante, desanimados, é ver como cruas verdades, certos níveis e patamares culturais. Melhorará a situação algum dia?…

Às vezes a ignorância e junto a estupidez são crônicas. E “contra a ignorância até os deuses combatem em vão”. Para o motorizado mau existem as multas. Para o mau pedestre elas precisam urgentemente ser criadas e executadas. Cinco e meia da tarde. Olho pela janela. Lá embaixo, na Visconde, o torvelinho está mo clímax. Ouço buzinas e apitos. E o trânsito flui. Os policiais do trânsito lembram-me pacientes toureiros enfrentando e parando, quase à unha e com o próprio corpo, os orgulhosos veículos infratores. Arriscam-se até sofrer danos físicos. Penso que em muitos carros destinados a Curitiba, os fabricantes decerto não instalam freios, apenas o acelerador. Se fossem domadores, teriam os policiais alunos mais receptivos. Feras aprendem e obedecem melhor. Não são humanos.

Boiadeiros de tropas também teriam tarefa mais simples. Donde se conclui que o gado-sapiens continua sendo o mais problemático. Que não se tire daqui o serviço de guarda do Diretran! São nossos salva-vidas. Apenas os semáforos dirigindo o trânsito, só isso não adianta.

E, ao que tudo indica, esses imprescindíveis vigilantes aqui terão que permanecer seculum seculorum. Ou até o dia quando em Curitiba apenas houver verdadeiramente cidadãos de primeiro mundo.

Às policiais e aos policiais do Diretran, nossos cumprimentos, nossa gratidão. Árdua missão a vossa! Estão ante um muito pesado front: o front da ignorância.

Triste é constatar que, lado a lado a essa admirável Curitiba de primeiro mundo, anda como uma sombra má, a Curitiba de primeiro I-mundo.

Ivahy Detlev Will

é da Academia de Letras do Vale do Iguaçu de União da Vitória.