Hoje em dia se dá de barato que Alfred Hitchcock é mestre do cinema. Com parte da carreira na Inglaterra e outra, depois de 1940, nos Estados Unidos, ele chegou a ser considerado decadente nos anos 50s. E seus filmes, vazios. Precisou um francês botar ordem na casa. No caso, dois: Claude Chabrol e Eric Rohmer, críticos do Cahiers du Cinema, produziram em 1957 um artigo que sentencia: “Hitchcock é dos maiores inventores do cinema. No caso dele, a forma não enfeita o conteúdo; o cria”. Daí em diante, ninguém contestou o mestre.

Hitchcock tinha gênio difícil. E hábitos estranhos para o cinema americano, como aparecer nos filmes ainda que em segundo plano e rapidamente. E torturava atores. Tinha hábito de brincadeiras macabras e de contar “piadas sujas e versinhos pornográficos” para atrizes novatas e inexperientes.

Ao contrário de boa parte dos diretores, Hitchcock não nutria simpatia com os atores. Na realidade, não os tinha em boa conta. E o pouco que se sabe de suas relações com os atores é suficiente para concluir: era tirânico. Dizia coisas como “atores! Não suporto vê-los”. Ou “atores são gado”. Que piorou, quando o indagaram se dissera aquilo: “Eu nunca disse que atores são gado – eu disse que eles deviam ser tratados como gado”.

O homem era terrível. Hitchcock era como técnico de futebol durão e frustrado porque, jovem, nunca foi craque. Era um sujeito solitário, sem amigos, infeliz, obsessivo, que se odiava, envolvido num casamento “não-convencional”. Hitchcock se realizava com poder, criando fantasias e enriquecendo. Os atores não eram vistos como colaboradores, mas uma espécie de rivais necessários porque sem eles não havia filme. Hitchcock não suportava o estrelato dos atores, os privilégios que gozavam e torcia o nariz para os altos salários que recebiam.

Tudo isto naturalmente não interfere numa certeza: era um grande diretor. Mas era um ser humano e como todos, com algumas virtudes e muitos defeitos. Entre as virtudes, tinha bom olho para mulher. E escolhia só dona de primeira. A galeria de mulheres que trabalharam com ele é de arrebentar: Ingrid Bergman, Marlene Dietrich, Grace Kelly, Doris Day, Vera Miles, Kim Novak, Janet Leigh e Tippi Hedren. Sem contar Alida Valli, Margaret Lockwood e outras. As loiras do mestre são de tirar o fôlego. Poucos cineastas fizeram tanto pelas loiras quanto ele.

A impressão que se tem é que Hitchcock não se preocupava se uma dona era ou não grande atriz. Ele se preocupava se ela sabia transmitir classe. Este parece o segredo dele com as mulheres. Outros podem ser conferidos no livro Fascinado pela beleza – Alfred Hitchcock e suas atrizes (Larousse, 318 pgs, R$ 59,90) de Donald Spoto, um especialista que já escreveu outros dois livros sobre o cineasta, não publicados no Brasil.

O livro é prato cheio para quem deseja conhecer os métodos do cineasta e principalmente sua relação com as mulheres de seus filmes. Grace Kelly, por exemplo, ao ser escolhida para Disque M para matar não passava de iniciante, de 23 anos, insegura com atuação no seu primeiro filme Matar ou morrer, com Gary Cooper. Antes de trabalhar com Hitchcock, correu a Nova York tomar lições de interpretação para não dar vexame. E se deu bem. Virou atriz fetiche do mestre.

Tippi Hedren talvez seja quem mais sofreu. Ela entrou de gaiata na obra do cineasta. Numa manhã de outono de 1961, o diretor tomava café com a mulher e a viu num comercial na televisão. Era de boa aparência, sensual, não atrevida. E a moça assinou contrato numa sexta-feira 13, de olho na grana, sem saber o que faria e com quem. Ela não saiu correndo dos estúdios porque precisava do dinheiro para cuidar da filha pequena. Sofreu o diabo. Mas entrou para a história do cinema com Os pássaros e Marnie, confissões de uma ladra.

Nem Ingrid Bergman, já famosa, passou ,incólume ao gênio. Ele ficou furioso ao saber que ela estava de malas prontas para a Itália fazer filme com Rosselini (com quem acabou se casando). Hitchcock sentia-se dono das atrizes e de seus destinos. E sentia ciumes quando o deixavam. Ao saber que Grace ia casar com Rainier, disse não sem ironia: “Lá vai ela para o melhor papel de sua carreira”. O homem não era fácil.

A mulher ideal para um filme de Hitchcock era aquela capaz de ser dama elegante, que se continha o suficiente para manter um homem intrigado. “Na tela, se uma atriz quer passar sexualidade, ela deve manter um ar levemente misterioso”, ensinava. O conceito é um coice na vulgaridade de hoje em dia. Hitchcock morreu em 1980, aos 81 anos. Sorte dele. Se estivesse por aí e visse o que o cinema faz sobre sexo hoje em dia, morreria de apoplexia. O mistério foi para o espaço. E a elegância junto. Mas a herança dele está solta em DVDs. E livros. E eles ensinam: o recato tem seus fascínios.

Serviço

Livro Fascinado pela beleza -Alfred Hitchcock e suas atrizes, de Donald Spoto
Editora Larousse
318 pgs R$ 59,90