Letícia Spiller:
?Paixão tem sabor de vida?.

Letícia Spiller é assumidamente passional. Para aceitar um trabalho, a atriz precisa se apaixonar pelo papel e poder se dedicar integralmente.

Tanto que, por dois anos, rejeitou vários papéis em novelas da Globo para mergulhar de cabeça em projetos de cinema e teatro. A volta à telinha acontece na nova novela das seis, “Sabor da Paixão”, de Ana Maria Moretzsohn. Letícia interpreta a protagonista Diana, que se apaixona por Alexandre Paixão, de Luigi Baricelli. A considerar seus filmes mais recentes – “Villa Lobos – Uma Vida de Paixão”, de Zelito Viana, e “A Paixão de Jacobina”, de Fábio Barreto – a palavra “paixão” vem mesmo rendendo muito trabalho para a atriz. “É um bom sinal. Paixão tem sabor de vida e é no trabalho que eu me renovo”, filosofa.

A atriz está longe das novelas desde 2000. Na pele da governanta Flávia Cristina, ela protagonizou “Esplendor”, outra novela das seis de Ana Maria Moretzsohn. Em seguida, Letícia recusou fazer a minissérie “Os Maias” e o papel de Jade, em “O Clone”. No início do ano, chegou a ser confirmada como a intérprete da problemática Mariana, de “Coração de Estudante”, mas mudou de idéia e optou por dedicar-se exclusivamente à peça “O Falcão e o Imperador”, inspirada num poema grego e em escrituras persas do Século XIII. “Na época, saiu o dinheiro do patrocínio e os ensaios eram extenuantes. Não dava para me dividir”, explica a atriz, que nega ter sofrido qualquer repreensão ou atendido a um “ultimato” da emissora para voltar à ativa.

Meio sapeca

Em “Sabor da Paixão”, Letícia Spiller interpreta a doce Diana. Com irreverência e jogo de cintura, a filha primogênita do bonachão Miguel Maria, de Lima Duarte, enfrenta as dificuldades financeiras e ajuda o pai a cuidar de seu bar na Lapa – bairro tradicional da boêmia carioca. Além disso, Diana mantém um noivado morno com o ciumento Nélson, de Marcelo Serrado, até se apaixonar pelo “bon vivant” Alexandre Paixão, vivido por Luigi Baricelli. “Ela é simples e meio sapeca. Ao mesmo tempo, tem os pés no chão e nunca tinha se apaixonado antes… Vai descobrir a vida durante a novela”, adianta a atriz que, no entanto, não acredita em amor à primeira vista. “A paixão pode acontecer assim. O amor não. Ele é cumplicidade. Exige que sejamos nós mesmos. Sem medo, sem máscaras”, divaga.

Letícia abandonou o estilo careca, que adotou durante um bom tempo por causa de “O Falcão e o Imperador”. As madeixas, que ainda estavam muito curtas, foram alongadas e tingidas de castanho. O visual a deixou parecida com Isabella Rossellini há 15 anos. Para viver uma alegre moradora da Lapa, Letícia nem precisou fazer laboratório. Ela já freqüenta o bairro há muitos anos e, lá, garante ter vários amigos músicos, pintores e dançarinos. “Adoro samba, chorinho… Eu respiro arte na Lapa e me sinto parte desse universo. É algo familiar, ancestral”, acredita. Mesmo assim, a atriz não dispensou as aulas de dança de salão, já que a personagem é uma legítima “pé-de- valsa”.

Além do berço da malandragem carioca, outro cenário que encantou Letícia foram os vinhedos do Norte Portugal, onde a atriz gravou durante 10 dias. As cenas referem-se à viagem de Diana para localizar as terras herdadas pela família e marcam o reencontro com Alexandre, que ela conheceu numa noite de festa na Lapa. “Adorei a região. É um lugar tranqüilo onde, nas horas de folga, pude fazer ioga e meditar”, conta.

A atriz assume sua preferência em atuar nos palcos, pela autonomia criativa que o teatro oferece ao ator. Mas destaca que o lado bom de voltar à televisão é trabalhar com uma equipe “alto astral”, numa história alegre e no velho estilo “conto de fadas”. “As pessoas precisam dessa leveza. A vida já está tão difícil, com tanta violência, tantas guerras… que a gente tem o dever de proporcionar bons momentos ao público”, defende.

Apostas ousadas

Letícia Spiller não se arrepende de ter recusado protagonistas em novelas e minisséries da Globo nos últimos dois anos. Durante esse tempo, a atriz realizou um projeto pessoal: montar um espetáculo inspirado no poema “Ascese – Os Salvadores de Deus”, do escritor grego Nikos Kazantzakis e nas escrituras de Jalal-Ud Din Rumi, um poeta persa do Século XIII. “Esses artistas de épocas e culturas diferentes sugerem que pode existir um pouco mais de poesia no caos em que a gente vive. Não podia ser mais atual”, diz Letícia – que raspou a cabeça e dividiu o palco com a atriz Jac Fagundes. As duas escreveram o texto e assinaram a direção com diretora Daniela Visco.

Além dos palcos, Letícia Spiller também se dedicou ao cinema. Interpretou a personagem-título de “A Paixão de Jacobina”, longa de Fábio Barreto previsto para entrar em circuito até o fim do ano.