A última vez que se ouviu falar de Bootsy Collins foi em 2011, quando o baixista lançou Da Funk Capital of The World. Se serve de prévia para os três shows que o alto sacerdote do funk, o cara dos óculos galácticos e molejo perpétuo, faz no Sesc Pompeia, a partir desta sexta, justificados estão os ingressos. O conceito cósmico pode soar datado; as batidas, uma mistureba de estilos de black music sem muita personalidade. Mas o balanço é incontestável. Com duas notas e um baterista econômico, Bootsy faz miséria. Sobre o palco da choperia, onde deve reler sucessos de sua passagem por duas das grandes bandas da história – os JBs de James Brown, e Parliament Funkadelic de George Clinton – assim como algumas do disco, não será diferente.

Bootsy é dos últimos moicanos da geração que construiu a soul music. A maioria de seus comparsas, aqueles que viram James Brown transformar o pop negro, está morta ou aposentada – para não falar dos que enlouqueceram com a quantidade de ácido tomada na época de sua segunda grande banda, o Parliament Funkadelic. Mas em Da Funk Capital, Bootsy mostra-se um fiel guardião de uma herança brilhante, cósmica e inenarravelmente suingada.

Décadas depois de sua formação nos JBs, banda que estabeleceu os alicerces rítmicos para todo tipo de dance music a partir de então, Bootsy ainda retém a reverência pelo pai do soul.

Em JB – Still the Man, por exemplo, o baixista conta com a participação do reverendo Al Sharpton, figura próxima de James Brown, para um sincero speech de louvação ao cantor. Em entrevista ao apresentador Jools Holland, Bootsy disse sobre sua homenagem: “James Brown é o meu pai. Eu era moleque de rua, não tinha pai. Brown me adotou. Mas sempre senti que ele não estava satisfeito, como se eu não estivesse dando o meu melhor. Queria agradá-lo, mas pensava ‘caramba, essa cara realmente não gosta de mim'”, contou, antes de emendar: “Anos depois me contaram que ele se sentia responsável por mim, queria ser sério, e não sabia como controlar um moleque doido, solto na rua”.

As gravações da época servem de atestado para o pulso firme de JB. Só Sex Machine e Super Bad já garantiriam a presença de Bootsy no cânone dos grandes. Mas estes são apenas o aperitivo. O legado de Brown e sua magistral banda contém aulas e mais aulas de precisão rítmica.

Mas não é só. Bootsy participou também da revolução afrofuturista de George Clinton, na década de 1970, na qual tocaria em discos visionários e faixas essenciais, como Flashlight, para a estética do hip-hop, anos depois. A proposta cósmica do Funkadelic define a música de Bootsy até hoje. “Imagine uma orgia”, contou o baixista, certa vez, ao Guardian, sobre os idos de George Clinton. “Muitas gatas e muita gente andando pelado – gente fazendo sexo por todos os cantos, todo mundo tomando LSD, fumando maconha, e ninguém tem medo de nada. Pense em qualquer coisa, e faça isto. E era assim antes do show, a caminho do show, durante o show, e depois do show. O circo era interminável”, contou.

Na época, Bootsy tomou ácido todo dia, por dois anos, até que a sensação de estar vivendo em outro mundo o incomodou. Era a fase em que, além de George Clinton, Bootsy era intensamente influenciado por Jimi Hendrix. Até hoje, é um dos especialistas em memorabilia hendrixiana, tendo construído em sua casa algo que se aproxima a um santuário para o guitarrista.

No novo álbum, por sinal, Bootsy conseguiu que a família de Hendrix liberasse alguns samples vocais para que o músico as incorporasse a uma jam cósmica. “Hendrix era deus”, disse ao jornal britânico. “Ainda é.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.