O som da Nuvens é um dos mais inventivos e dinâmicos da atual cena musical curitibana. A fusão de ritmos denuncia a pluralidade da banda, que consegue unir maturidade sonora e experimentalismo em um trabalho que flerta com o folk, o rock e a música popular brasileira. Sem se limitar a uma única vertente, a banda aposta na diversidade rítmica com a mesma naturalidade que dialoga com outras esferas artísticas.

Essa fusão de elementos está estampada nos shows do projeto “Sarau nas Nuvens”, que reúne música, poesia, artes visuais e performances circenses e no encontro com o teatro de sombras no espetáculo “Nuvens em Sombras”.

A originalidade e o respeito pela música atestam que a Nuvens é a banda da vez. O primeiro disco homônimo, gravado em março de 2008, chegou a ser um dos mais vendidos no país. Eles também participam ativamente do movimento Música Para Baixar [MPB], para debater a nova realidade da indústria musical.

A Nuvens quer nos levar a tocar o céu com os pés no chão. Nesta entrevista, eles falam sobre a essência da banda, registrada no próprio nome.

O Estado: Como está sendo a experiência de ter o primeiro disco em circulação e que reflexos o CD causou na banda?

Amandio:Ter um disco gravado é como um filho que nasce, representa o resultado daquele momento da banda. A banda se formou durante as gravações. O Rapha começou tudo, e a galera foi entrando e terminando arranjos e cada um colocando o seu toque pessoal, então quando o CD foi finalizado a gente começou a viver o processo de shows como uma banda mesmo. Hoje as musicas do primeiro CD já evoluíram
de seus arranjos originais, mostrando que a banda criou uma identidade. Marcus: A gravação do CD criou a banda, pois ela nasceu dentro do estúdio gravando. Desde então já sofreu várias transformações, inclusive nos arranjos das músicas da CD e na forma de tocá-las. E com a experiência de tocar junto por esse tempo, nos desenvolvemos também coletivamente, criando uma identidade própria de grupo.

O Estado: Como aconteceu a escolha do repertório para compor o primeiro disco?

Amandio: Não foi muito fácil não, tínhamos mais de vinte músicas. É claro que havia algum consenso em algumas músicas que teriam que entrar no disco, mas em outros casos houve até votação. E ainda assim o disco acabou com 15 faixas , que é um número relativamente grande, principalmente para um disco de estreia. Mas tinha de ser assim.

O Estado: O trabalho da banda dialoga com o cinema, teatro, circo e artes visuais. De que maneira as outras vertentes artísticas influenciam no trabalho musical?

Raphael: As outras vertentes influenciam diretamente, pois são fontes de inspiração. Ao ver um filme, ler um livro, assistir uma peça é natural que nasça um processo criativo. Já que acreditamos que a arte além de ter um papel fundamental na sociedade, ela também é essencial para tocar a sensibilidade do homem abrindo-o e motivando novas percepções. Marcus: Creio que, além disso, quando surge na gente uma necessidade de inserir um algo a mais nos shows, estamos sempre abertos a novas experiências no que diz respeito a outras vertentes artísticas dialogando com nosso trabalho ao vivo.

O Estado: Onde vocês costumam ensaiar e com que frequência?

Amandio: Nós procuramos ensaiar sempre, pra manter o fogo aceso. Às vezes é apenas um ensaio para determinado show, às vezes é um ensaio com roteiro diferenciado como o espetáculo “Nuvens em Sombras” e às vezes são músicas novas. Nesse caso procuramos nos isolar em uma chácara ou algum lugar que possamos nos dedicar exclusivamente para aquelas músicas. Estamos inclusive vivendo esse processo criativo agora.

O Estado: No primeiro Sarau do ano, vocês divulgaram o MPB [Música para Baixar] e tamb,ém disponibilizam canções para download. Como
vocês encaram essa nova forma de produzir música?

Raphael: Essa forma é uma nova realidade da história da música mundial. Estamos passando por uma revolução cultural e acreditamos que é fundamental dialogar e discutir a fim de entender cada vez mais o que vem a ser a música livre e o movimento Música Para Baixar. Nós que somos os representantes do MPB no Paraná acreditamos que o público e o apreciador de arte em geral têm um papel fundamental nesse nosso momento, já que ele pode modificar o mundo ao seu redor sendo um parceiro direto da banda, divulgando o trabalho seja no boca
a boca, seja na internet. Hoje o papel do mediador está acabando. Nós chegamos direto ao público, e o público direto em nós. E dessa forma ficamos mais independentes de antigas ferramentas de comunicação e ao mesmo tempo cada vez mais dependentes desse relacionamento saudável e construtivo com o público.

O Estado: Como foi a experiência com o projeto “Sarau nas Nuvens” e qual a expectativa para este ano?

Amandio: A experiência foi ótima, pois tivemos contatos com vários artistas locais, além de Carlos Careqa e André Abujamra, que nos honraram com suas presenças.

Marcus: Foi uma experiência interessante e bastante intensa. Pudemos descobrir e ter contato com diversos artistas, e também proporcionar uma experiência diferenciada para o público, que acreditamos que muitas vezes queiram sair para realmente consumir algo novo, seja música, literatura, artes visuais, ou qualquer outro tipo de arte. E com o trabalho pudemos desenvolver o evento, e para 2010 buscamos efetuar algumas mudanças para cada vez mais trazer um evento diferenciado ao público.

O Estado: Quais os próximos projetos da banda?

Raphael: Além do “Sarau nas Nuvens” temos um novo projeto em andamento que será bacana para a cena musical de Curitiba como um todo. O foco total é na nossa renovação artística, que resultará num espetáculo novo, que representará o novo momento da banda. Nele estarão algumas músicas antigas, mas também muitas composições novas. Será uma grande experiência, pois trabalharemos com o (diretor) Edson Bueno, que nos ajudará a lapidar a estrutura cênica desse show, que ainda esse ano rodará o país e se concretizará no nosso primeiro DVD e CD ao vivo.

Serviço: O CD da Nuvens está disponível para download ou compra no site www.nuvens.net.