O belo corpo mignon de Alessandra Negrini perde na disputa de atenção para o olhar enigmático. Nas vezes em que encara para explanar suas opiniões, revela olhos negros perturbadores. Na verdade, esta paulistana prestes a completar 32 anos exala a mesma sensualidade que empresta aos seus papéis televisivos.

Tanto faz se for a desequilibrada Selma, de “Desejos de Mulher”, ou a selvagem Isabel, da minissérie “A Muralha”. Para reforçar ainda mais a imagem de “mulher fatal”, Alessandra vai ser revista em “Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados” a partir de 20 de agosto. A Globo exibe a série pela terceira vez em homenagem aos 90 anos do dramaturgo Nélson Rodrigues. Na produção de 1995, com 20 capítulos e um grande elenco, Alessandra se destacou pela primeira vez na televisão. “Engraçadinha ainda é o papel de maior representatividade na minha carreira”, avalia.

A atriz não tem uma passagem ou cena específica que a tenha marcado na minissérie. O que faz Alessandra reviver o clima das gravações são os tangos de Astor Piazzolla, que embalaram a maioria das cenas de Engraçadinha. Ela lembra bem, no entanto, é da insegurança que sentiu. Além da pouca experiência na tevê, a série global era o seu primeiro contato com o universo “rodrigueano”. “Não sabia se já era atriz o suficiente. Mais em relação à linguagem da tevê, pois vinha do teatro”, lembra Alessandra. Em 2002, aliás, a atriz encerrou a temporada de dois anos da peça “O Beijo no Asfalto”, também de Nélson Rodrigues, em que interpretou outra Selma. “O Nélson é um gênio. Sem querer desmerecer ninguém, mas somos pobres mortais perto dele. Eu, os autores, o público, todo mundo…”, empolga-se.

Muito trabalho

Exausta após uma jornada de mais de oito meses de “Desejos de Mulher”, Alessandra não esconde que a novela de Euclydes Marinho foi trabalhosa para toda a equipe. Isto porque a produção passou por várias transformações para conquistar audiência e se manter acima dos 30 pontos. A atriz garante que os atores sentem a pressão pela audiência e que o clima geral de trabalho acaba afetado. “Às vezes, você se sente um soldado em um campo de batalha. E você tem de vencer!”, relata. Por isso, Alessandra se diz na expectativa de que “Desejos de Mulher” chegue ao fim. “Quero ter férias e esquecer esta coisa de atriz do momento. Quero ser gente, só”, fala baixinho.

Mesmo assim, Alessandra jura que vai sentir saudade de Selma. A personagem aprontou mil e uma na trama da novela, como trocar de identidade, roubar o marido da irmã e internar a mãe em um manicômio. No entanto, Alessandra ressalta que houve uma integração com o autor da novela para decidir qual o caminho que a personagem iria tomar durante a produção. Para Alessandra, foi um risco modificar o estilo da personagem e que nestas horas é preciso ter em cena “bons jogadores”. “Se só houver um bando de modelos e gente bonitinha, que não têm este jogo de cintura, as novelas não darão mais certo”, alfineta. Segundo a atriz, não existe mais espaço para atores sem poder de raciocínio. “Um ator que não pensa não tem Oficina da Globo que dê jeito”, detona. Alessandra também acredita que é quando se encara os percalços de uma novela que se avalia a qualidade de um ator. “Fazer minissérie é mais fácil. Quero ver se o ator é bom fazendo uma novela”, provoca.

Sem novela em casa

Alessandra afirma que não é do tipo de atriz que assiste à novela em que está atuando. Além do dia-a-dia atribulado, a atriz confessa que não gosta de se ver no vídeo, pois se critica. Por isso, se contenta com umas olhadelas esporádicas na novela. Prefere dar atenção ao filho Antônio, de 5 anos, ou ao músico pernambucano Otto, que ela namora há cerca de seis meses. “Se além de decorar o texto, for assistir à novela, a minha vida pessoal acaba. Não tem homem que fique e nem filho que agüente”, pondera. Com planos para fazer cinema e produzir uma peça após um período de férias, Alessandra é direta em esclarecer quais os critérios para aceitar um próximo trabalho na tevê. “Não entro em produção para não aparecer. Se me chamou é para me dar um bom personagem e espaço, senão estou fora”, avisa.