Não vou ter como comprar. Fui lá, vi. À vista, sai uns duzentos reais. Não dá, agora, sem emprego, para pensar nessas coisas. Não tinha como saber. Como é que eu ia saber, já prometi pro guri. Vou dizer, olha filho, não comprei, não chegou na loja. Ele viu lá. Vou dizer, não vou te dar já, logo eu compro, agora não deu. Diga isso, ele vai entender. Que vai entender eu sei, o menino é dez, parece adulto, a força que está dando lá em casa. É que eu sempre disse, só prometa se for cumprir. Eu prometi a bicicleta.

Marcos, aquela bicicleta, que era do teu filho, cê tem ela? Tá lá, no fundo do quintal. Ele deixou aí. Me vende? Que vendo nada. Que que se vai querer com essa bicicleta, tá toda enferrujada. Prô Felipe. Marcos não continuou perguntando, não perguntou por que não comprar uma nova. Ficou com vontade, olha, se precisar te empresto um dinheiro. Agora meu filho tá me mandando uma ajuda do Japão, te empresto, quando der me paga. Ele sabia que Roberto estava numa pior. A Marita tinha passado por uma cirurgia complicada, para piorar as coisas. Plano de saúde eles não tinham, fizeram no SUS. Roberto sofreu muito, comentou com os amigos do futebol, devia ter plano, oferecer para família mais conforto. Que é que ele podia fazer. Era um cara certo, trabalhava direito, não passava ninguém prá trás. Na empresa, tinham passado ele para trás. Um cara novo que entrou, Roberto contou, inventou uma estória, queria o lugar dele. Mandaram Roberto embora. De que jeito agora conseguir emprego, quase cinqüenta. Olha, Roberto, pode pegar a bicicleta, não está assim boa, mas pegue, uma pintura, os aros, fica legal. Os pneus tem que trocar.

A bicicleta saiu do fundo do quintal. Roberto sentiu na mão a umidade do selim. Fazia tempo que a bicicleta estava encostada. Foi empurrando, rompendo o mato que crescia entre os aros. Olhou rápido, ferrugem, a tinta. Os adesivos que o filho do Marcos tinha colocado. Quase desistiu de levar, pensou, o Felipe merece uma novinha, essa aí tá um caco, vou dar uma bicicleta velha. Prometi, vou cumprir. Depois, quando der, compro uma bicicleta nova. Dou um jeito nessa, até sábado dá tempo.

Seu Mário, concerta pneu de bicicleta? Depende. Seu Mário gostava de responder depende para tudo. Tinha a borracharia há uns vinte anos alí, Roberto não conseguia imaginar como ele vivia. Será que tinha tanto pneu furado assim para consertar? Depende do pneu. Essa aí. Aro vinte. Deixeu ver. Ô, passou uma mulher um dia, não era aqui de perto. Deixou umas rodas de bicicleta aí. Faz tempo, um ano quase já. Faz o seguinte, cê sempre me deu uma mão, cê me ajudou naquele negócio do terreno, pega essas rodas. Se a mulher aparecer de volta, eu me entendo com ela. Ela não vem, não era daqui. Devia tar indo para praia, passou, esqueceu. Acontece isso. Mário já ía trocando as rodas velhas com os pneus furados pelas novas. A bicicleta ia iluminando, as rodas eram novinhas mesmo. É pro Felipe? É. Mário encheu os pneus, passou um pneu-pretin. Valeu, quanto te devo? Deve nada. Depois gente vê.

Roberto chegou em casa com a bicicleta velha de pneus novos. Rodas novas. Marita veio andando, com dificuldade. A mão ainda segurando a barriga. Comprou? Não, fiz um negócio com o Marcos, era do filho dele. Tá nova quase, né? Oh, Roberto, não precisava, o Felipe entende. Mas eu prometi…Cê, que exemplo de pai, hein? Deixa eu ver: roda tá novinha. Vou falar com meu irmão, fazer essa pintura do quadro. Ele gosta, tá nisso de grafitte agora, vai fazer, gosta do sobrinho. Marita ligou para o irmão. Neco morava perto, veio na hora. Cabelão cumprido, rastafari, camisa coloridona. Aí, Roberto, fala? Oi, Neco. Neco era o cara mais malucão que Roberto conhecia. Roberto todo certinho. Diferentes. Se acertavam como irmãos. Roberto admirava a liberdade de Neco, Neco, volta e meia pedia um conselho para o cunhado. Deixa comigo, vou fazer uma pintura manera. Vou fazer umas panteras aí, se vai ver. Vai ficar show de bola. Neco levou a bicicleta. Empurrando. Voltou no final do dia. Neco adorava o Felipe. Único sobrinho. Bateu a campanhia. Marita e Roberto vieram atender, ele, o jornal na mão, classificados, procurando emprego. Ela de roupão, andando, segurando os pontos. Nossa, que linda! Neco segurava a bicicleta pelo guidão. Para que a irmã e o cunhado vissem. Meu Deus, olhe lá, as panteras, as águias! O Felipe vai ficar louco! Aí, fui lá na casa dum amigo meu que faz umas tattoos. Ele fez as panteras, assim, no rochedo, olhe que manero, elas assim brigando com as águias! Puxa, ficou bem bacana mesmo! Quanto que ele te cobrou? Não cobrou nada não. É meu brother. Falei que era pro Felipe, ele fez com esse capricho. Quanto que a gente te deve, Neco? Nada, cês sempre tão aí, uma mão lava a outra. Sábado, aniversário do Felipe, né?

Purra, que bicicleta bonita essa! Onde arranjou, importada? Não, o Neco, lembra, meu cunhado, ele e o amigo fizeram a pintura. Uma pintura dessas, sai uma fortuna. Tá na moda, agora piazada gosta desses desenhos radicais, dragão, pantera, cobra. É do Felipe? É, vou dar sábado, aniversário dele. Ele vai amar. Tem que dar uma olhada nessa correia e nas catracas. Colocar no ponto. Eu faço isso aí. Deixa ela, pega daqui a pouco. Jair, eu tô meio duro, não queria pendurar com você, vê lá o quanto você vai gastar nesse conserto. Não esquente, Roberto, tenho tudo aqui na bicicletaria, depois a gente vê. Roberto chegou no final da tarde na bicicletaria do Jair. Catracas e correntes trocadas. Um freio novo, de alumínio, importado. Guidão novo. Pombas, Jair, cê deixou nova a bicicleta? Que nada, fui colocando umas peças, aí, do estoque. Quanto que eu te devo? Deve nada, eu é que tou em dívida, a Marita foi operada, a gente nem apareceu lá no hospital, as coisas tavam corridas por aqui, a Wanda também, cês são nosso amigos, gente daqui. Inda mais pro Felipe, que é um guri tão bacana…

Quando Roberto chegou em casa, Marita mal acreditou no que viu. A bicicleta nova. Só faltava o selim para trocar. A capa do selim, disse Roberto. Nem isso falta, falei na loja de estofamentos, eles fizeram uma capa nova. Isso, encaixou, perfeito. Felipe vai amar. Vamos deixar escondida, amanhã no aniversário damos para ele.

Parabéns prá você…Ô Pai, ô Mãe, brigadão. Trás a bice, Roberto! Pombas Pai, que bicicleta bacana! Felipe não acreditou, as rodas de nylon, a pintura do quadro, tudo, nunca tinha visto nada igual. Não precisava! Imagine filho, a gente tinha combinado. Você merece. Felipe abraçou Roberto, seu pai, seu orgulho, o melhor pai do mundo. Montou na bicicleta. Roberto foi ajudando, ajudando. Felipe pegou o jeito rápido. Logo estava pedalando, pedalando mais forte, andando de bicicleta. No fim, disse pro pai que não precisava ajudar, que já sabia, Roberto soltou a mão do selim, o menino sumiu, desceu a rua, queria mostrar pros amigos o presente. A bicicleta mais bonita do bairro. Do mundo.

O tempo foi passando, Roberto voltou a trabalhar, Marita sarou, Felipe entrou na faculdade. Conheceu Júlia na Federal, casaram depois de formados, tiveram um filho. Robertinho. Roberto morreu quando Betinho ia fazer oito anos. Dois meses antes do aniversário do neto. Morreu tranqüilo, descansou. Betinho pediu de aniversário uma bicicleta. Felipe era advogado, as coisas iam bem. Podia comprar a bicicleta que quisesse. Não comprou. Foi na casa da mãe. A bicicleta estava lá, com um pouco de pó em cima, mas ainda linda, as águias e as panteras pintadas por tio Neco na sua luta eterna. Falou com a mãe, levou a bicicleta: vou dar paro o Betinho o presente que mais gostei na vida!

O aniversário cheio de gente. Os amigos de Felipe, as esposas, os filhos. Gente que tinha crescido com ele no bairro, gente que ele conheceu na faculdade. Betinho com os amigos para lá e para cá. Tio Neco, malucão, coração gigante, comandando a bagunça. Felipe mostrou a bicicleta depois do Parabéns. Olhe, filho, essa bice era minha. Olhou para baixo porque não conseguia dizer mais nada. Porque lembrou do pai, do esforço, da palavra, do exemplo. Porque queria muito que o pai estivesse alí, que fosse ele dando o presente pro neto-xará. Eu sei pai, sonhei com o vô ontem, ele disse que ia me ensinar a andar. Felipe não entendeu direito. Talvez a gente não entenda direito as coisas mais importantes da vida. As coisas que simplesmente acontecem, únicas, especiais. O valor de tudo que é bom, de tudo que fazem de bom para a gente. Esse valor que fica, que não vai embora, que ultrapassa o tempo e a vida. E Betinho montou na bicicleta, e sem nunca ter andado, saiu pedalando, fazendo voar as panteras e as águias, pedalando forte, cortando o vento. E Felipe, feliz, fechou os olhos e viu o pai, o avô agora, segurando e equilibrando o neto, ensinando, mostrando como se faz para pedalar a bicicleta e ir tocando a vida.

Aristides Athayde é advogado, professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito de Curitiba, mestre pela Northwestern University Chicago, Former Chairperson da Câmara de Comércio Brasil EUA (AMCHAM), membro da Câmara de Comércio Franco Brasileira e da ICC International Chamber of Commerce

aristides@aristidesathayde.com.br