Por esta nem mesmo Lex Luthor, Coringa ou o Dr. Silvana esperavam. Depois de dezoito anos de publicação ininterrupta e seis meses após haver perdido os direitos sobre os personagens da Marvel Comics, a Editora Abril, de São Paulo, está abrindo mão dos super-heróis da DC Comics. Com essa medida, deixarão de circular, no Brasil, as revistas com as aventuras de Superman, Batman, Arqueiro Verde, Flash, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Homem-Borracha, Liga da Justiça, Capitão Marvel, Aquaman, Titãs e inúmeros outros heróis fantasiados.

A notícia, veiculada na última quinta-feira, nos sites Omelete e UniversoHQ, colheu de surpresa os leitores de gibis, já que no início do ano a Editora Abril havia prometido uma “revolução” sem precedentes no Universo DC. Pretendia reformular inteiramente a sua linha de publicações, popularizando as edições e despejando no mercado uma imensa variedade de novos títulos, reedições e edições de luxo. Seria a resposta estratégica da editora à abrupta perda do selo Marvel e de alguns dos maiores ídolos da garotada, como Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Wolverine, Hulk, Thor, Vingadores e Demolidor para o Grupo Panini/Mythos Editora.

Com esse propósito, a luxuosa linha Premium (em papel couchê, 164 páginas, capa cartonada e R$ 10,00 o exemplar) foi substituída pela modesta linha Planeta DC, impressa em papel comum, no velho “formatinho”, com circulação quinzenal, 54 páginas e o preço de R$ 2,50 por edição. Com isso, aspirava retomar o antigo público-alvo infanto-juvenil, do qual afastara-se para investir em publicações mais sofisticadas e caras. Para os colecionadores, de maior poder aquisitivo, seriam reservadas minisséries e edições especiais, mais cuidadas e em formato maior.

A novidade não durou mais que cinco meses. Todas as publicações da linha Planeta DC serão suspensas em julho, em seu número 5. O site Heróis.com, porta-voz da editora para essa família de títulos, já foi retirado do ar, assim como o da Ação Games.

Fala, Figa!

Sérgio Figueiredo, redator-chefe e encarregado do Grupo de Licenças da Abril, garante que a redação de quadrinhos da editora não será desativada, uma vez que existem vários outros projetos em andamento que serão mantidos. Também terão continuidade as revistinhas da linha Disney. Mas confessa que todos os esforços para manter os heróis DC não surtiram o efeito desejado, “não por questões editoriais, e sim por conta da situação do mercado”.

A única publicação que ainda deverá ser lançada (embora ainda sem data fixada) pela Abril é a terceira e última parte de Batman – Cavaleiro das Trevas II, de Frank Miller, que está atrasada por culpa do próprio autor.

Figueiredo assegura que a Editora Abril utilizou, sem resultado, todos os recursos ao seu alcance para recuperar o volume de vendas que as revistas em quadrinhos tinha nos anos 90. Disse também que a editora americana DC Comics, com a qual continua mantendo ótimo relacionamento, compreendeu a situação sem maiores problemas.

Por fim, fez questão de agradecer a todos os leitores, colaboradores, tradutores e desenhistas que estiveram com a Abril na jornada de quase duas décadas e afirma que estará torcendo para que “a asa do Homem-Morcego e o emblema do Homem de Aço continuem nos corações das crianças e jovens brasileiros”.

A Editora Abril afasta-se, assim, por inteiro, do mundo dos super-heróis, encerrando uma era iniciada há 23 anos, com o primeiro número de Capitão América.

Mythos ou Conrad?

É pouco provável que os super-heróis DC fiquem muito tempo longe das bancas e gibeterias brasileiras. Eles podem não ser mais comercialmente interessantes para o Grupo Abril, mas várias outras editoras nacionais, de menor porte, terão, com certeza, todo o interesse em retomar as aventuras de Superman & Cia. O velho herói de Siegel e Shuster, ainda hoje um dos maiores mitos do mundo contemporâneo, chegou ao Brasil no final de 1940, através de Adolfo Aizen, na revista Lobinho n.º 8 (dezembro/1940). Em 1947, o mesmo Aizen, grande pioneiro dos quadrinhos no país, lançou, pela sua EBAL, o n.º 1 de Superman, revista própria do Homem de Aço.

A candidata natural seria a Mythos Editora, que cuida atualmente das revistas do Universo Marvel para a Panini Comics, com excelente resultado gráfico-editorial. No entanto, o editor Fernando Bertacchini, contatado por Sérgio Codespoti, do site Universo HQ, acha que, apesar do interesse da editora pelo material da DC, é muito cedo para fazer qualquer especulação a respeito.

André Forastieri, da Conrad Editorial, que seria outra forte pretendente aos títulos DC, também procura despistar:

– Sou leitor dos gibis da DC desde 1970. Seria um prazer editar os seus personagens. Mas, por enquanto, prefiro dizer que não tenho nada a declarar.

Conseguirão Superman, Batman e companheiros superar esta nova dificuldade, superar o isolamento que lhes foi imposto e evitar o esquecimento dos leitores brasileiros? Aguardemos o próximo capítulo.