Caetano Veloso não se diz
satisfeito com o que fez.

Caetano Veloso está lançando o disco ??A foreign sound?? com 23 canções americanas, a maioria standards, um projeto que fez zigue-zague na sua cabeça por 30 anos até finalmente ver a luz do dia agora, com lançamento simultâneo nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

Numa entrevista coletiva nesta quinta-feira, Caetano falou do disco, de política, de funk e partiu para a autocrítica, dizendo que até hoje não fez disco algum que o realizasse artisticamente. “Não sou satisfeito com o que fiz. Estou me devendo fazer alguma coisa que preste” disse ele diante de jornalistas de todo o país reunidos no Copacabana Palace.

Indagado sobre o golpe militar ocorrido há 40 anos disse que foi uma experiência que determinou o rumo de sua vida. “Talvez eu não estivesse lançando disco nenhum se não tivesse havido a prisão e passado dois anos e meio no exílio. Eu tinha vontade de deixar de fazer música popular porque acho que não tenho talento musical suficiente para ficar fazendo isso. Continuo com a mesma opinião, mas eu não tive forças…se não tivesse havido aquilo eu teria tido força para dar uma guinada no meu destino e fazer só filmes ou ensinar, estudar para ensinar, mas eu preferiria fazer filmes. Eu acho que música é uma coisa muito séria e a pessoa precisa ter mais musicalidade para estar metido nisso do que eu tenho. Eu fui diminuído na minha coragem de decisão por estes acontecimentos” relatou.

Indagado por um jornalista porque escolheu o dia primeiro de abril, dia do golpe e da mentira, para lançar o disco, ele rebateu: – Eu escolhi para fazer a entrevista coletiva, não para lançar o disco, que não é lançado hoje. O Dia da Mentira é o dia da imprensa o dia do disco é verdade pura. Caetano fez várias restrições ao próprio CD, dizendo que tinha “uma seleção demasiadamente variada” e que era longo demais, 75 minutos, para ser ouvido aos poucos, mas não quis tirar músicas de que todos gostavam. Ele acha que a canção americana é a melhor do mundo, pela riqueza que vai de compositores como Rodgers e Hart, Irving Berlim, Cole Porter, George e Ira Gershwin, passando pelos gênios do jazz como Duke Ellington, Miles Davis, cantoras como Ella Fitzgerald e Billie Holiday, colocando em segundo lugar a música cubana e, a seguir a brasileira.

O disco tem em um repertório americano de standards que remetem até aos anos 30, como a hilária “The carioca” da trilha sonora do filme ??Going down to Rio?? que foi o primeiro da dupla de ouro do musical, Fred Astaire e Ginger Rogers, mas é o primeiro filme deles e a estrela era Dolores del Rio. O filme se passa num Rio fake, que tem até uma réplica do Copacabana Palace, a razão alegada para que a coletiva de imprensa fosse no hotel.

“É uma falsa canção de um país tropical, por isso coloquei a percussão baiana, que são ritmos tropicais que não existem. O disco apresenta uma diversidade muito grande de arranjos, nada da voz empostada e de uma cascata de violinos que se esperaria de um disco de standards.”