?Você tem feito a sua parte??,
pergunta Caio Blat.

Cabe ao artista ser filtro. O verdadeiro artista é capaz de se defrontar com a realidade e extrair dela os seus motores emocionais, os sentimentos que movem as atitudes humanas. E ser voz. Expressá-los. Tornar a emoção, a experiência do sentimento íntimo, mais importante que o fato em si. E o que pode haver de mais tocante para o ator e para a platéia do que a dor? A tristeza da miséria… A violência assassinando sonhos…

Só assim a arte cumpre seu papel fundamental na sociedade humana: o de transformar.

Transformar o público, suas idéias, seus ideais, colocando-o frente a frente com as questões atuais, como fazem os “rappers” Racionais, MV Bill, Sabotage… Deixando no ar as perguntas: Você concorda com isso? Você tem feito a sua parte? Se a sua cabeça andava ocupada com preocupações pessoais, como ignorar esse sentimento que aperta o coração?

Transformar toda uma época, incentivando os valores da solidariedade e da igualdade, como fez Victor Hugo com Os Miseráveis.

Mas a primeira transformação tem que ser a do próprio artista, que precisa descobrir que toda popularidade inclui obrigatoriamente responsabilidade. Saber que existe um compromisso, uma vez que muita, mas muita gente, ouve o que ele diz. Informar-se, observar, perceber que vivemos em um país pobre, em um mundo cruelmente desigual, onde a simples indiferença já é um crime aos olhos de Deus.

É preciso e urgente que o artista pesquise, se emocione e faça da sua arte uma arma. A realidade está por toda parte. O sonho onde está? No palco. O ensaio de um mundo mais justo, mais poético, melhor, acontece no palco, na tela do cinema, da tevê. Através da máscara da personagem, seremos aquilo que pudermos imaginar: anjos, irmãos. Na música, cantaremos nosso amor, nossa liberdade.

O cinema nacional se reergueu assim. Olhando para a dor, para a miséria, para a pobreza que dá até um nó em nossas gargantas. Central do Brasil, Eu, Tu, Eles, Abril Despedaçado. Olhando para a violência intolerável, mas real. O Que É Isso, Companheiro?, Bicho de Sete Cabeças, Cronicamente Inviável, vem aí Carandiru.

Mas o último superfilme brasileiro junta todos esses elementos, revelando na película esse ciclo de indiferença, pobreza e violência em que vivemos hoje. Não perca Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.

Talvez o fato de as crianças pobres encontrarem no tráfico a única alternativa de ganharem algum dinheiro incomode, comova e convide à caridade. À doação de alimentos, dinheiro, roupas, material escolar, brinquedos. Ou, principalmente, à doação de um pouco do seu tempo para as centenas de projetos sociais carentes de voluntários.

Talvez o fato de a grande maioria do elenco ser formada por moradores de favelas desperte e instigue os artistas, as autoridades e os empresários a enxergarem que a arte despontou como a grande alternativa para esses jovens carentes que precisam se expressar. Que projetos como o Nós do Morro, do Vidigal, no Rio de Janeiro, e o Affro Reggae, de Vigário Geral, na mesma cidade, transformam possíveis futuros marginais em grandes atores, músicos, artistas, simplesmente tirando-os da rua no seu tempo livre e alimentando-os de cultura.

Artista, tome consciência do seu poder. Exerça o seu mandato público. Empresário, qual a responsabilidade social do seu lucro? Invista em cultura social. Governantes e futuros governantes, como aceitar a corrupção? Como dormir tranqüilos à noite, enquanto crianças estão morrendo de fome e de bala? Jovens, a indiferença de nossos pais nos legou um Brasil violento. O que vamos deixar para nossos filhos?