Mais de quatro séculos depois da sua morte, a vida de Luiz Vaz de Camões é ainda uma floresta densa de dúvidas, interrogações, incertezas, conjecturas, incógnitas, perplexidades. Os inúmeros biógrafos do poeta, de Faria e Sousa a Teófilo Braga, de José Maria Rodrigues a Agostinho Campos, de José de Sousa Botelho, morgado de Mateus, a Aquilino Ribeiro, de Hernani Cidade a Antônio Salgado Júnior, poucas vezes coincidem na descrição dos eventos e na cronologia dos fatos, uns e outros muitas vezes imaginários.

A inexistência de documentos fidedignos ou fontes respeitáveis forçou muitas vezes os biógrafos a malabarismos intelectuais, procurando nos próprios poemas do vate “chaves” para os enigmas e soluções para os problemas mil com que se depararam, dificultando sensivelmente as suas pesquisas quase beneditinas. Ainda que eu esteja de inteiro acordo (e quem sou eu para não estar?) quando o grande Octávio Paz afirma que a melhor biografia de um artista é sempre a sua obra. Certíssimo. A verdade é que os artistas, de modo especial os ficcionistas e os poetas (que são talvez os grandes ficcionistas, trabalhando, não com personagens, mas com sentimentos, emoções, volições, construções oníricas, etc.), costumam ter uma imaginação poderosa, com a capacidade de recriar, reconstruir, inventar, transfigurar. Chegando até mesmo à simulação. Quando não à mistificação pura e simples. Aliás, o meu xará lisboeta, João Gaspar Simões, defende essa tese com relação ao processo da criação heteronímica pessoana, e ao seu “drama em gente” edificado com método – e sem aparentar a loucura de Hamlet. Enfim, poetas nem sempre podem ser levados ao pé da letra. Assim, quando o lírico escreve que está amando uma rainha, ou sendo amado por uma princesa de longos cabelos louros e olhos cor de violeta, como os da Elizabeth Taylor, é bom desconfiar. Podem até existir a rainha e a princesa, em termos metafóricos, é claro. Sob os trajes comuns, talvez, de uma secretária ou de uma balconista peripatética. Tudo é uma questão de imaginação. Da mesma forma, o poeta pode até cantar, com desespero fictício, a miserabilidade da sua vida, comodamente instalado num sofá macio, com um copo de Balantines ao lado, escutando, em surdina, a Sonata Patética, de Tchaicowsky, ou a Valsa Triste, de Sibelius. Da mesma forma que pode conceber odes à alegria, ainda que sob o efeito de dores físicas ou morais. Como ensina Pessoa, que muitos consideram o Camões do século vinte – e eu próprio tenho essa convicção há décadas,

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente…”

Mais de quatro séculos depois da sua morte, insisto, a biografia do criador do épico Os Lusíadas, dos líricos Sonetos, e das Canções metafísicas, continua oferecendo inúmeros desafios, com as incontáveis lacunas que surgem nessa hiléia amazônica verbal que é a sua “opera omnia”. A sua vida.

Certezas? Só uma: Camões morreu no dia 10 de junho de 1580.

Soneto a Camões, em surdina, como quem reza
Cantaste o mar, como se o mar salgado
guardasse um infinito canto doce.
Seria flauta o instrumento alado,
ou lira, ou bandolim? Fosse qual fosse,

cantaste, duramente concentrado
do teu canto de mármore, agridoce,
como jamais ninguém tinha cantado,
as belezas que a musa antiga trouxe

Da Grécia e Roma à língua portuguesa.
Cantaste velas, quilhas, lemes, mastros,
heroísmos, naufrágios, na voragem

de um canto feito de épica grandeza.
E cantaste, em surdina, à luz dos astros,
o amor e a morte e os sonhos e a coragem.

Drummond & o Nobel

Infelizmente, na galeria do Prêmio Nobel de Literatura ficou faltando um nome paradigmático: Carlos Drummond de Andrade. Da mesma forma que a Academia Brasileira não soube engrandecer-se (a honrar-se) admitindo o itabirano em seu seio augusto, sem a formalidade ridícula de formular o pedido a cada um dos imortais reinantes. A ABL deveria tê-lo aclamado por unanimidade, a fim de que fosse, lá dentro, o indiscutível “primus inter pares”. De longe. Temos aí duas injustiças flagrantes. Duas injustiças irreparáveis. Filhas, ambas, da ignorância ou da soberbia. No caso da Academia Sueca, dê-se o desconto de que ela desconhece o nosso idioma. No caso da ABL, os acadêmicos, na sua imensa maioria, parecem não saber (ou não sabem mesmo) o que é a “poiesis”. Azar dele

Mini-soneto para Drummond

No teu canto claro,
no teu gesto ambíguo,
no teu pranto amaro,
no teu riso exíguo,

no teu grave ofício,
na tua missão,
no teu exercício,

e na tua mão,
desabrocha a flor
da beleza ardente.
Seja como for,

tua luz perdura
na alma da gente
para sempre. Pura.

João Manuel Simões

é escritor. Membro da Academia Paranaense de Letras.