Admirador do trabalho da companhia holandesa Toneelgroep Amsterdam, o curador da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), Antônio Araújo, convidou o diretor do grupo, o belga Ivo van Hove, para apresentar um trabalho no evento. Hove comentou que estava no início de um processo com o texto A Song From Far Away. A montagem, que ganhou coprodução da MITsp, faz sua estreia mundial nesta terça-feira, 10, como Canção de Muito Longe, no Teatro Anchieta.

O espetáculo foge do padrão de Hove, conhecido por produções de grupo e uma mescla de linguagens artísticas. Terceiro monólogo do diretor, Canção… é uma peça sobre perda. No enredo, o ator Eelco Smits vive Willem, um holandês que, ao se mudar para Nova York, se desconecta de tudo: família, amigos e até sentimentos. A situação muda quando um de seus irmãos morre, e ele volta a Amsterdam, remexendo o passado e restabelecendo emoções.

“A peça é sobre a potencial mudança que a perda pode causar na vida de alguém”, diz Hove, em entrevista ao Estado. “Este é um tema que rodeia meu trabalho. A morte é parte da vida.” Ele destaca que o espetáculo tem um caráter existencial, destoando da linha curatorial da segunda edição da MITsp, que pende para questões políticas.

O texto, assinado por Simon Stephens, é quase como uma carta ditada por Willem a seu irmão já morto. Não fica claro, no entanto, se as palavras do protagonista formam uma correspondência ou se ele fala consigo mesmo. Confuso e deslocado, Willem narra suas sensações na volta para Amsterdam e os encontros, sempre difíceis, com parentes, um ex-namorado que ele tenta reconquistar e até um recém-conhecido brasileiro com quem ele passa uma noite.

Se o cinema presente em algumas das encenações de Hove não se vê em Canção…, ele é substituído pela música – o que justifica o título do espetáculo. Durante sua atuação, Smits canta trechos de uma canção. À medida que a história se desenrola, os trechos se alongam e a música ganha corpo, em uma relação direta com a evolução dos sentimentos do personagem.

Para Hove, monólogos configuram desafios mais ousados do que peças com um maior número de personagens. “É preciso transformar o texto em uma peça com início, meio e fim”, diz. “Não é apenas colocar alguém que fale à plateia sobre o que ele sente.”

Minimalista, o cenário mostra dois cômodos praticamente vazios: há apenas uma luminária e um ar condicionado. O ambiente faz as vezes do apartamento de Willem, da casa de sua família, de quarto de hotel. “A cenografia tem um pouco voyeurismo, lembra Hitchcock”, diz Hove, citando o longa Janela Indiscreta (1954). “Quero que o público se sinta como um intruso, testemunhando a crise existencial de um jovem.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.