d22.jpgZélia Duncan é a melhor cantora de um mundo pop cujo entorno ela recusa. Sempre teve aversão a revistas de fofoca, festas, à imagem em detrimento da arte. Ano passado criou um selo para quebrar sua rotina musical, Duncan Discos, com o bom ?Eu me transformo em outras?. Ao retomar sua trajetória na gravadora Universal, ela mostra que a experiência foi válida. Pré-pós-tudo, bossa, band é o seu melhor disco de carreira e um manifesto contra estereótipos que limitam a criatividade e padronizam a inspiração.

Rio (AG) – Não à toa, ela ampliou seu universo em parcerias com Lenine, Lucina, Pedro Luís, Moska, Mart?nália, Lulu Santos e ousou letrar Guerra-Peixe. Não à toa, ela incluiu quatro faixas de um de seus compositores prediletos: Itamar Assumpção.

Com Lenine, ela fez a faixa que abre, dá as cartas e nome ao disco: ?Todo mundo quer ser bacana/ Álbuns, fotos, dicas para o fim de semana?, diz ?Pré-pós-tudo, bossa, band?. Para em seguida falar sobre a alegria de ?não ser divina?, de ?estar na terra?, em ?Carne e osso?, parceria com Moska.

Se esta canção traduz em palavras o que pensa a cantora, ?Vi, não vivi?, de Assumpção com Christiaan Oyens, e ?Mãos atadas?, de Simone Saback, as faixas seguintes, representam filigranas de emoção pura, subliminar. Já ?Benditas? (?Benditas coisas que eu não sei/ Os lugares onde não fui?), com Mart?nália, é uma declaração sincera de amor pela novidade.

Mas o melhor está na seqüência que começa na música-síntese ?Tudo ou nada?, inédita de Itamar Assumpção com Alice Ruiz. Os versos ?Come on baby/ Transformar esse limão em limonada/ Passar da solidão pra doce amada/ Pegar um trem pra próxima ilusão?, sobre uma melodia simples e um belo arranjo é sucesso certo.

?Distração? é uma letra preciosa de Zélia, assim como ?Dor elegante?, de Itamar, desta vez com Paulo Leminski, em um reggae certeiro: ?Um homem com uma dor/ É muito mais elegante/ Caminha assim de lado/ Como se chegando atrasado/ Andasse mais adiante?. Pura Zélia, não?

Ainda não. A cantora ousa na tradição, letrando ?Inclemência?, de Guerra-Peixe, com uma precisão incrível, casando letra e melodia e abençoada por um arranjo delicado da maestrina Bia Paes Leme. Tradição reinventada também no arranjo jazzístico para ?Não?, com Moska, ou no curioso samba-exaltação-elétrico ?Quisera eu?, com Lulu Santos. Zélia fecha o disco regravando ?Milágrimas?, outra de Assumpção, dando a receita para transformar mil lágrimas em um milagre. Assim como está dando, disco a disco, a receita para fazer do pop um mundo plausível e menos vazio.