A própria assinatura – com o q no lugar do c – já denuncia a multiplicidade do som feito pelo cantor e compositor Carlos Careqa em Tudo que respira quer comer, lançamento independente de seu próprio selo, BED -Barbearia Espiritual Discos.

O sexto disco do músico, que comemora seus 25 anos de carreira, será apresentado em show hoje, no palco do Teatro Sesc da Esquina. Como enfatiza Maurício Kubrusly no texto de abertura, o CD abre um leque de idéias-surpresa, de faixa a faixa: o álbum mantém a linha artística de Careqa, e associa humor ácido e lirismo poético em 14 faixas inéditas.

O cenário atual da música brasileira é colocado em questão na faixa-título do disco, que questiona Tudo que se ouve será música?. A proliferação de cantores e cantoras que utilizam a arte para satisfazer o próprio ego em detrimento da criação artística também aparece em Por quê?, onde o compositor coloca em questão a idéia de sucesso a qualquer custo: “Por quê você quer ser artista?/ Por quê você quer ser cantor?”.

Edson Kumasaka/ Divulgação
Carlos Careqa lança CD e comemora 25 anos de carreira.

O músico e ator, que nasceu em Santa Catarina, foi criado em Curitiba e escolheu São Paulo para viver desde 1991, acredita que muitas pessoas, não satisfeitas com o que fazem, procuram nas artes uma fuga, sem mesmo saber se têm ou não talento.

“O cenário musical brasileiro é constrangedor. Principalmente o que atingiu a grande mídia. Não se pensa mais na música, ou no texto. Simplesmente usam a música para ganhar uns trocados”.

Depois de gravar um CD em homenagem ao cantor norte americano Tom Waits, em 2008, Tudo que respira quer comer é uma sequência do segundo e terceiro discos – Música para final de século (1998) e Não sou filho de ninguém (2004) – e marca a sua retomada às canções.

O humor, uma das particularidades do músico, é compartilhado com convidados como a cantora Maria Alcina na faixa Que que ce qué? – que conta ainda com a participação do trombonista Raul de Souza – e parceiros antigos como Adriano Sátiro na letra da irreverente Vacamor -música em que Careqa divide os vocais com Zé Rodrix.

“Eu já tinha alguma coisa de ironia, mas também era muito romântico em relação às letras. Depois que conheci o Sátiro, ele me ensinou muita coisa. Digamos que ele me libertou deste romantismo e me pôs no caminho do bem, como ele mesmo diz. Com isso, ampliei esta minha capacidade de ironia e bom humor. Eu gosto desta linguagem, pois falamos de coisas sérias com muito humor”, diz.

Produzido por Mário Manga em parceria com o próprio cantor, o CD ainda recebe convidados como Raul de Souza (trombone), Mônica Salmaso (voz) , Marcelo Pretto (voz), Guello (percussão), Juliana Perdigão (voz), Gabriel Levy (acordeom), Toninho Ferragutti (acordeom), Chico Mello (piano), Tatiana Parra (Voz), Skowa (voz), Camilo Carrara (violão) e Fernando Vieira (voz).

Assim como Careqa, o artista plástico Guto Lacaz, que assina o projeto gráfico do disco e o fotógrafo Edson Kumasaka, autor das imagens do encarte, também buscam no humor um alicerce de trabalho.

Uma máscara de cabeça de cavalo utilizada em um espetáculo de Lacaz (O A e o U, encenado em São Paulo em 2008) serviu de inspiração para o projeto do CD e também está presente na composição plástica do show.

“Eu uso o cavalo para dizer que todos estamos carentes de ouvir e ser ouvidos. Todos os que respiram, piram!”. Na apresentação, ainda há uma citação do texto Música para reouvir, do músico Luiz T,atit, que trata da quantidade de músicas que ouvimos atualmente.

Para Careqa, a relação entre imagem e música não é importante somente na arte gráfica do disco ou na composição do show, mas atinge o impalpável. “Quando estou cantando e fecho os olhos fico imaginando. Penso na platéia, como será que eles estarão pensando esta frase em termos de imagem?”.

Serviço

Show de lançamento do CD Tudo que respira quer comer, de Carlos Careqa. Hoje, às 20h, no Teatro Sesc da Esquina (Rua Visconde do Rio Branco, 969). Ingressos: R$ 20. Informações: (41) 3304-2222.