Matheus Nachtergaele
com Paulo José em A Muralha.

Quando terminou de gravar Da Cor do Pecado, Matheus Nachtergaele prometeu a si mesmo que aquela seria a sua primeira e última novela. Embora tenha gostado de atuar numa produção do gênero, admite que é desgastante dispor de tanto tempo para um único projeto. A promessa, porém, não durou muito. Logo, um telefonema de Glória Perez fez Matheus reconsiderar sua decisão. Primeiro, ela disse que havia escrito o papel de Carreirinha especialmente para ele. Diante da relutância do ator, ainda usou de chantagem: garantiu que só incluiria o personagem na trama se Matheus aceitasse fazê-lo. ?A Glória armou uma cilada e tanto para mim. Só aceitei porque não me senti no direito de sacrificar um personagem tão chapliniano quanto o Carreirinha?, justifica.

Nos primeiros capítulos de América, Carreirinha não passava de um peão desmiolado que infernizava a vida dos outros com um jeito meio auto-destrutivo de ser. Vivia enchendo a cara e, volta e meia, passava a noite no xilindró de Boiadeiros. Mesmo assim, a exemplo do que aconteceu em O Auto da Compadecida e Da Cor do Pecado, Carreirinha também caiu nas graças do público. Principalmente do infantil. Mais que depressa, Glória Perez promoveu algumas mudanças no perfil do personagem. De brigão e arruaceiro, passou a bom-moço e namorador. ?Fiquei sabendo que o filho de uma amiga minha só sai de casa quando a mãe veste ele de Carreirinha. E o menino tem três anos…?, acha graça.

Apesar de ainda estar em sua segunda novela, Matheus Nachtergaele já sabe que eventuais desvios de rota são mais comuns do que ele imagina. O que ainda causa espanto a esse paulistano de 36 anos é o tempo que se perde para gravar duas ou três ceninhas por dia e, principalmente, a histeria emburrecida que acomete alguns fãs. Da última vez que gravou em Barretos, cidade no interior de São Paulo que serve de cenário para a fictícia Boiadeiros, ele e outros integrantes do elenco tiveram de ser conduzidos até o ?set? através de um cordão de isolamento. ?Não gostaria que agissem comigo como se eu fosse um animal de circo?, queixa-se.

P – Uma recente pesquisa da Globo mostrou que o Carreirinha faz enorme sucesso junto ao público infantil. Isso surpreende você?

R – Honestamente, sim. Muito embora isso seja uma espécie de característica de alguns trabalhos meus na televisão. O João Grilo, o Pai Helinho e até o Cintura Fina, por incrível que pareça, fizeram sucesso com as crianças. Curioso, não? O Carreirinha, então, nem se fala! O filho de uma amiga minha, que mora no interior, só sai de casa quando a mãe veste ele de Carreirinha. E o menino só tem três anos… (risos). Muito do sucesso dele se deve ao fato de ser tão amoral quanto uma criança. Ele pode até dizer coisas desagradáveis para alguém, mas ele não faz isso por maldade ou algo parecido e, sim, por ser uma pessoa inconseqüente. Afinal, ele foi criado sem pai, nem mãe, nunca teve um afago da vida, essas coisas…

P – Inclusive, por conta dessa identificação, o Carreirinha parou de beber e nunca mais foi preso…

R – Exatamente. A certa altura da novela, notei que o desenho original do personagem havia mudado. Por um lado, ele era uma criança inconseqüente. Por outro, um adulto auto-destrutivo. Uma pessoa que bebia demais, ia preso, destruía as coisas dos outros… Com o tempo, o lado ?junkie? e alcoólatra foi perdendo força. O que para mim não chegou a ser surpresa. Sei que essa é apenas uma das muitas características da telenovela. Nem tudo o que lhe foi prometido será cumprido. Nem todas as tintas que lhe deram para pintar seu quadro serão usadas.

P – Com tantos anos de carreira dedicados ao teatro e ao cinema, o assédio do público ainda assusta?

R – É claro que sim! O público sempre veio falar comigo sobre a qualidade do meu trabalho. Hoje em dia, isso começa a mudar. De uns tempos para cá, notei uma certa histeria emburrecida no ar. E isso é assustador. Quero que as pessoas conversem comigo sobre o personagem e, se for o caso, até critiquem a novela. Só não quero que ninguém grite comigo. Não quero que ajam como se eu fosse um animal de um circo. Recentemente, passei a receber também uns telefonemas obscenos em casa. Às vezes, as pessoas ligam e ficam em silêncio, arfando… Nunca imaginei que o Carreirinha pudesse suscitar uma reação como essa. Até desconfiava que ele pudesse despertar alegria nas crianças, mas nunca passou pela minha cabeça que servisse de fetiche para homens e mulheres…

P – O assédio desmedido do público seria o pior revés da novela?

R – Ah, a espera é outra característica bem esquisita. Certa vez, alguém parabenizou o Marcello Mastroianni pelos seus 40 anos de cinema. Aí, ele respondeu: ?40? Não. De cinema mesmo, só foram uns 5. Os outros 35 eu passei esperando para filmar…?. Comigo acontece o mesmo. Como novela toma muitos meses de sua vida, chega uma hora em que seu pavio está curtíssimo. Você quer gravar, trabalhar, não quer ficar sentado esperando… No meu caso, o que observo é que é difícil manter a garra o tempo todo. Como deixar o Carreirinha vivo e pulsante por quase um ano? Esse é um desafio que enfrento diariamente…

Lucélia Santos despertou o talento

Matheus Nachtergaele tinha oito anos quando começou a se interessar pela arte de representar. Mais especificamente pela novela A Escrava Isaura, de Gilberto Braga, a primeira a que assistiu do início ao fim. Tudo por causa da atriz Lucélia Santos… ?Foi a primeira vez que fiquei fã de alguém?, lembra. Na idade de prestar vestibular, porém, optou por Artes Plásticas. Anos depois, já cursando a FAAP, foi encorajado por uma amiga a fazer teste para a companhia de Antunes Filho. Detalhe: jamais havia assistido a uma peça na vida. ?Fui tomado por uma comichão absoluta e, pela primeira vez, estava lutando por alguma coisa?, lembra. Às vésperas de encenar Paraíso Zona Norte, porém, Matheus foi cortado pelo diretor. ?Quase pirei?, resume. De tão deprimido que ficou, partiu para a Bélgica, onde pensou em estudar teatro ou trabalhar com quadrinhos. Não fez nem uma coisa nem outra. Por dois anos, soltou a voz em boates de Bruxelas e Paris. ?Lá em casa, tem sempre uma cigarra na família?, brinca. De volta ao Brasil, Matheus entrou na Escola de Arte Dramática da USP, onde conheceu Antônio Araújo, que o convidou para fazer Paraíso Perdido. Mais uma vez, largou o curso pela metade. ?Amanhã ou depois, se for preso, vou para a cela comum?, diverte-se.

Do teatro, migrou logo para o cinema e a tevê. A atuação como Cintura Fina em Hilda Furacão valeu o prêmio de ator revelação da APCA. ?Costumo ver qualidades nas piores atuações. Já comigo, sou ácido mesmo?, garante.

Sucesso nos cinemas

A atriz Fernanda Torres foi uma das muitas espectadoras que assistiu, boquiaberta, à performance de Matheus Nachtergaele no espetáculo O Livro de Jó, de Antônio Araújo, em 1995. Quando ela soube que o diretor Bruno Barreto estava à procura de um rosto novo, ainda desconhecido do grande público, para interpretar o guerrilheiro Jonas, um dos mais xiitas do grupo guerrilheiro MR-8, no filme O Que É Isso, Companheiro?, não teve dúvidas e, imediatamente, sugeriu aquele ator de nome quase impronunciável para o papel. ?Tenho tido a sorte de fazer filmes bastante vistos. Acho que tenho faro para sentir o carisma do projeto?, arrisca, pouco modesto.

Imodesto ou não, a verdade é que o sobrenome de origem belga figura nos créditos de alguns dos mais badalados filmes da nova safra do cinema nacional. A começar pelo próprio O Que É Isso, Companheiro?, que disputou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1997. O ator voltou a dar sorte ao Brasil em duas outras ocasiões: em Central do Brasil, de Walter Salles, e em Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Em ambos, demonstrou a sua já famosa versatilidade ao interpretar, respectivamente, um ingênuo nordestino e um traficante carioca. ?Não sou exatamente feio, bonito, estranho ou normal. Meu tipo se presta às mais diferentes moldagens?, garante.

Desde então, Matheus já atuou em mais de 20 longas, como o infantil Castelo Rá-Tim-Bum, de Cao Hamburguer, o policial Bufo & Spallanzani, de Flávio Tambellini, e o ?thriller? Gêmeas, de Andrucha Waddington. Ainda este ano, aguarda o lançamento de mais três: Árido Movie, de Lírio Ferreira, Tapete Vermelho, de Luís Alberto Pereira, e A Concepção, de José Eduardo Belmonte. Em seguida, pretende estrear também como diretor. É dele o roteiro de A Festa da Menina Morta, ainda em fase de captação. ?O desafio é continuar sempre. Quando você acredita que já chegou a algum lugar, abre-se, então, um novo abismo à sua frente?, filosofa.