(“Que se cuidem os cônsules!”)

O senado romano, nas crises de governo, investia os cônsules de sua autoridade sob os seguintes dizeres: “Cáveant cônsules ne quid detrimênti respública cápiat!”* (“Cuidem os cônsules para que a república não sofra nenhum dano!”)

Ora, as eleições vêm aí. Campanhas caríssimas, desgastantes e mesmo enfadonhas para os candidatos e para os eleitores. Verdadeiras fortunas são investidas, como num jogo de altas apostas, em que muitos candidatos esperam ser eleitos, para recobrar o investimento que, segundo consta, é de 40 milhões para deputado estadual e 80 milhões para deputado federal(!). Aqueles que se elegem a expensas próprias (ou não), nós sabemos como conseguem reverter o prejuízo. Vocês viram, em episódios recentes (painel do Senado e quejandos), como funcionam as negociatas nos bastidores do poder. Mas continua sendo um enigma para nós, míseros súditos, a maquiavélica solução engendrada por aqueles que não conseguem eleger-se; qual a fórmula mágica para reaverem o que perderam na campanha…

A corrupção campeia desbragada, atingindo níveis nunca imaginados, e se alastra pelos três poderes. O País está desgovernado e caminha assustadoramente para o caos. Problemas como a violência, a insegurança pública, a miséria, a ladroeira, parecem não ter mais limites. A bandidagem do narcotráfico tomou conta do poder e desafia as autoridades(?), arremetendo-se diretamente contra elas, em estratagemas cada vez mais audaciosos. Não há mais dúvida de que existe aí um poder paralelo!

Desprotegido e acuado, o cidadão espera sua vez de ser seqüestrado na próxima esquina, torturado e morto pelos criminosos. De um lado, bandidos travestidos de policiais; de outro, policiais travestidos de bandidos. Não tem saída, não tem escapatória!

Os integrantes dos órgãos públicos que não se deixaram arrastar pela avalanche da corrupção estão sendo ameaçados, intimidados, caçados e eliminados pelos marginais, para se desencorajar qualquer tentativa de modificar o status quo.

Fico, então, a cismar sozinho em meu canto, tentando encontrar uma explicação plausível para o estranho surto de patriotismo dessa gente que investe tanta grana para eleger-se presidente, governador, deputado, senador, em um país como este, que vive um período de tanta desesperança, de tanta desolação, de tanta pobreza.

Que outro negócio – fico pensando – daria um retorno de 40 milhões (ou mais, muito mais!) em quatro anos? Seria uma ambição desmedida pelo poder? Ou seria uma ganância despudorada, insaciável, como a daquele cretino que usou o cargo de juiz para meter a mão no jarro, desavergonhadamente, e viver no fausto, onde sobravam veículos de luxo, iates, apartamentos de 1 milhão de dólares – tudo comprado com dinheiro surrupiado de uma população miserável?

Mas, de uma coisa estejam certos, Excelências! O povo está acordando desse torpor atávico e começa a enxergar as mazelas que se descobrem a toda hora, em toda a parte.

“Caveant consules!” Que se cuidem os políticos que estão vindo aí de pires na mão, à cata de votos, para que a nação não sofra mais danos do que já vem sofrendo! Saibam que a fase dos anões do orçamento, das obras superfaturadas, dos assaltos contra a previdência, do confisco de nossa poupança, está chegando ao fim. O povo está despertando… E vai cobrar caro dos vendilhões da nação, dos traidores da pátria, como já aconteceu em outros países, em tempos idos. O povo está cansado de ser espoliado, de pagar cada vez mais impostos para cobrir os rombos cada vez maiores da corrupção generalizada.

É chegada a hora de mudar! Só peço a Deus que essa pobre gente, ao fugir das conhecidas aves de rapina, não venha a cair na boca de lobos vorazes que, no período eleitoral, se nos apresentam como mansas ovelhas!

Nota

– Os acentos gráficos, que em latim não existiam dessa forma, são aqui usados para lembrar a pronúncia correta aos não iniciados.

Albino de Brito Freire

é juiz de Direito e professor da Escola da Magistratura do Paraná.