Além de atrair público universitário, gravar discos independentes de maneira precária e ganhar pouco dinheiro com música, outro ponto comum aos grupos da chamada vanguarda paulistana dos anos 80 era o senso de humor. O Grupo Rumo (de Luiz Tatit e Ná Ozzetti), Arrigo Barnabé, o Premê e Itamar Assumpção eram exemplos de refinamento e invenção. O Língua de Trapo, que acaba de lançar a caixa "25 Anos" (Gravadora Atração) já soava mais tosco musicalmente e as letras eram mais escrachadas.

De escrita satírica, no entanto, eles também primavam pelas tiradas inteligentes, como seus contemporâneos. Não perdoavam (e não perdoam) ninguém, como disse Jô Soares ao apresentá-los em seu programa, e cuja fala está na abertura de um dos CDs da caixa retrospectiva. Política econômica, insurreição feminista, impotência sexual, emancipação indígena, pesadelo nuclear, caça predatória, vampirismo empresarial, crime passional, revolta infantil, italianismo paulistano, necessidades fisiológicas, homossexualismo, informatização, punks, metaleiros, socialites, hipocondríacos, TFP, americanismo – tudo isso e muito mais é alvo de gozação certeira.

O órgão sexual masculino ganhou até uma trilogia. A Vila Madalena também. "Ouriço na Vila", "Bartolo Bar" e "Na Mourato", por sinal, compõem uma ótima e impagável seqüência de crônicas urbanas que testemunham as transformações do bairro paulistano – o paraíso hippie que se transformou num dos inferninhos do consumismo noturno.

A caixa reúne quatro álbuns de estúdio – "Língua de Trapo" (1982), "Como É Bom Ser Punk" (1985), "Dezessete Big Golden Hits Superquentes mais Vendidos do Momento" (1986) e "Brincando com Fogo" (1992) -, um compacto com duas faixas, "Sem Indiretas" (1984), e dois registros de shows, "Língua ao Vivo" (1996) e "Vinte e Um Anos na Estrada" (2000), este também em DVD. Algumas letras ficaram um pouco datadas, outras, como observa Laert Sarrumor, um dos fundadores do grupo, "infelizmente continuam atuais".

‘Da tradição de humor na música brasileira, a geração Lira Paulistana se diferenciava pela diversidade de gêneros, lembra Laert. "Alvarenga e Ranchinho eram uma dupla caipira, Noel Rosa, Adoniram Barbosa, Lamartine Babo e outros eram sambistas. A gente incorporou elementos que não havia antes no humor, fazendo um caldeirão de ritmos, principalmente assumindo o brega e o rock, além do componente teatral, um dos elementos mais fortes dessa geração", diz.

Nesse caldeirão vale tudo: samba, rock, fado, tango, bossa nova escatológica, guarânia, canto lírico, reggae, moda de viola, heavy metal, xote e muito brega, entre outros. Laert distingue a banda em dois núcleos: o de compositores, formado por jornalistas engajados como ele, Carlos Melo e Guca Domenico, além do agregado Ayrton Mugnaini Jr., e o de instrumentistas, formado por bons músicos como Sérgio Gama e João Lucas. Sonoramente, o grupo evoluiu a cada disco: os músicos não apenas tocam melhor, como os recursos de gravação aprimoraram os registros.

Paródias

O Língua até faz paródias auto-referentes. Em "Velhice Precoce" (1996), que remete a "Burrice Precoce", de 1982, a letra justifica: "A introdução é a mesma, mas a música é diferente/ Pra você ver que afinal nós somos os mesmos, mas andamos pra frente." A vinheta que antecede "Benzinho" é uma pândega alusão à abertura de "Concheta", uma de suas bregas mais conhecidas.

Contemporâneos dos roqueiros do Ultraje a Rigor, Léo Jaime e Miquinhos Amestrados, o Língua até almejou mais sucesso entre o segundo e o terceiro álbum. "Chegou um momento em que tentamos entrar na onda de tocar no rádio, mas com o tempo fomos desencanando disso", lembra Laert.

Há quem detecte influência do Língua sobre outros grupos como os extintos Mamonas Assassinas (com a diferença de que este era bem mais ingênuo) e até o novíssimo e talentoso Jumbo Elektro. O falso inglês que este grupo apelidou de "embromation" já aparece em Evridei (de "Brincando com Fogo"), que por sua vez é herança de "Canção para Inglês Ver", de Lamartine Babo.

"Essa geração da vanguarda paulistana trouxe elementos novos para a música que não vi ninguém mais trazer com tanta força depois." Vale lembrar até que os desenhos eróticos de Carlos Zéfiro, que aparecem em "Dezessete Big Golden Hits…", eles usaram muito antes de Marisa Monte em "Barulhinho Bom". No primeiro caso fazia sentido.

Sem lançar material novo desde 2000, o grupo se sente na dívida com seu público. Eles têm mostrado algumas novidades nos shows e paródias políticas no programa "Rádio Matraca", que mantêm no ar há 20 anos todo sábado, das 17 às 18 horas na Rádio USP FM (93,7 MHz ). Ali sobra muita crítica ao governo Lula, que para petistas de primeira hora como eles é uma decepção. "A gente meio que confundiu nossa história com a do PT. Fizemos muito show de graça em comícios, em cima de caminhão. É um trauma para nós."