E que tal começar a maratona da 37.ª Mostra pelos clássicos? Há nesta sexta-feira um Yasujiro Ozu de 1962, o último filme do grande diretor, “A Rotina Tem seu Encanto”, e um Alain Resnais de 1976, o único filme em língua inglesa do artista, “Providence”. Ozu colocou no título uma súmula do seu trabalho, porque o mestre minimalista sempre fez filmes baseados no encanto da rotina de seus personagens emblemáticos da crise da família japonesa. Resnais, filmando em inglês, poderia perder a musicalidade dos diálogos que faz parte do mistério de “Hiroshima Meu Amor”.

O longa escrito por Marguerite Duras permanece como a obra-prima de Resnais. Em 1959, quando foi lançado em Cannes e ganhou o prêmio da crítica, era um filme adiante de sua época, como disse em maio a atriz Emmanuelle Riva, ao apresentar a versão restaurada em Cannes Classics. (Re)Lançado nos cinemas da França, “Hiroshima” está levando mais público às salas do que levou ao longo dos últimos 54 anos. A idade cai bem às obras que o tempo respeita.

O segundo melhor Resnais da história – é uma etiqueta que se pode colar em “Providence”, e o espectador que for ver nesta sexta o filme deve entrar na sala disposto a fruir o que vai ver. O cinema não é para entender, já disse Wim Wenders. É para sonhar. Talvez seja essa, no limite, a grande, a radical diferença que as novas tecnologias estão trazendo para a mídia. Para fruir – sonhar – é bom que a tela seja ampla e a sala, escura, para que o espectador possa se projetar na estrutura audiovisual montada pelo diretor. Hoje, fazem-se filmes para passar em laptops e celulares. Você pode captar a informação – a intriga, a trama -, mas não a fruição. “Avatar” não é a mesma coisa na tela Imax e no seu celular, com certeza.

A trilha de Miklos Rozsa, o roteiro de David Mercer, as presenças de John Gielgud e Dirk Bogarde. Resnais chegou a dizer na época que o inglês era, para ele, a língua do imaginário. Ele conversava com os produtores para filmar “As Aventuras de Henry Dickson”, de Jean Ray, com Dirk Bogarde. Conheceu David Mercer e tudo mudou. Surgiu a história do velho escritor que tece o último romance e projeta na ficção as pessoas – amigos e parentes – ao redor. Pensando que vai refletir sobre eles, ele fala de si, e de sua arte. O espaço e o tempo da imaginação. Passado, presente, realidade, fantasia. Depois de todo o delírio, a cena final é o que se pode sonhar que seja a perfeição no cinema.

A Mostra inicia a revisão de Ozu pelo derradeiro filme do autor e, na quarta, dia 23, exibe “Era Uma Vez em Tóquio”, também conhecido como “Viagem a Tóquio”, de 1953. “Era Uma Vez” é um dos filmes mais depurados de Ozu. Só um louco, ou outro artista muito sensível, seja qual for a diferença, poderia ousar refazer a obra-prima. Yoji Yamada ousou, e você poderá ver “Uma Família em Tóquio”. Mais que a história, muitas cenas são as mesmas – um casal de velhos visita os filhos em Tóquio, mas a comunicação é difícil, os filhos estão sempre ocupados. Yamada não tem o rigor estético de Ozu, mas a humanidade de seu cinema rendeu uma das séries mais longevas do cinema, com 30 e tantos filmes – “É Triste Ser Homem”. Pode parecer um delírio do repórter, mas a família de Yamada é tão boa quanto, senão melhor, que a viagem de Ozu. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

MELHORES DO DIA

– “Evolução de uma Família Filipina”, de Lav Diaz – Descreve a saga de uma família, dos tempos da ditadura Ferdinando Marcos até sua queda.

– “Providence”, de Alain Resnais – Em cópia restaurada, uma das obras-primas do francês. A história, de um escritor que tenta terminar seu livro, não é nada linear. Resnais vale-se do recurso das idas e vindas no tempo, e de um simbolismo às vezes sincrético, porém de beleza visual.

– “Lolita”, de Stanley Kubrick – Mais um Kubrick, este fora do CineSesc. Baseado no romance-escândalo de Vladimir Nabokov sobre o envolvimento amoroso entre uma menina e um homem de meia-idade.

– “O Árbitro”, de Paolo Zucca – Em tom cômico, comenta o gosto dos italianos pelo futebol e a corrupção na arbitragem.