Mais antiga companhia teatral do mundo, a Comédie-Française poderá ser vista de quinta a domingo, no Sesc Pinheiros. Em turnê que já passou por Montevidéu e Buenos Aires e, depois de São Paulo, chega ao Rio, a companhia criada por Luís XIV, em 1680, deve apresentar “O Jogo do Amor e do Acaso”, texto escrito por Marivaux em 1730, que merece direção do búlgaro Galin Stoev.

A escolha não poderia soar mais clássica, uma mordaz comédia de costumes, conhecida do público que frequenta a sede da cia. – um suntuoso palacete na Praça Colette, no centro de Paris – desde o século 18. “Mas, ainda que se trate de um texto antigo, é uma peça capaz de tratar do tema que me parece mais urgente hoje: a intolerância em relação ao outro. A relação com a diferença é algo que tem mobilizado a França. E nos parecia importante levar essa discussão adiante”, comentou Muriel Mayette, que comanda a Comédie desde 2006, em entrevista à reportagem.

Em “Jogo do Amor e do Acaso”, acompanha-se a história de Sílvia (Leónie Simaga), moça prometida em casamento a Dorante (Alexandre Pavloff). Com a intenção de conhecer o noivo antes do enlace, ela consegue convencer o pai a deixar que o visite, disfarçada como criada. Nessa farsa, cabe a sua camareira (Suliane Brahim) ocupar o papel da patroa. Sílvia, porém, não contava com a possibilidade de que seu futuro marido tivesse a mesma ideia e se apresentasse travestido como o servo Arlequim.

O engano está na origem da comédia – o fato de um dos personagens ignorar o que, de fato, se passa em cena é elemento essencial para o gênero. Marivaux vai além: coloca os dois protagonistas em estado de ignorância durante boa parte do espetáculo. E retira daí o seu efeito cômico. Seu intuito, porém, não se restringe a entreter a plateia. Quer usar o riso para observar os costumes.

Por trás do enredo aparentemente ingênuo, a obra está a esmiuçar convenções sociais. Existe um evidente debate sobre a diferença de classes a ser colocado. Para o encenador, Galin Stoev, “hoje, é difícil abordar a questão de classe”. “Poderia quase dizer que as classes já não existem ou que se trata de uma questão muito menos visível. Em todo caso, prefiro falar de diferenças, de abismos. Vivemos em um mundo onde, paradoxalmente, as diferenças são destacadas de uma forma invisível.”

As máscaras são uma constante nas criações de Marivaux. Nessa peça, que ele concebeu para uma companhia de artistas italianos e, em seguida, foi incorporada ao repertório da Comédie-Française, a busca pela verdade desponta em primeiro plano. Ainda que essa verdade, em alguns casos, advenha necessariamente de uma mentira. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O JOGO DO AMOR E DO ACASO – COMÉDIE-FRANÇAISE

Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195, tel. 3095.9400). 5ª a sáb., 21 h; dom., 17 h. R$ 40. Até 13/10.