São Paulo – Alguns astros milionários, quando querem agradar os filhos, às vezes põem uma loja do McDonald?s na sala, como fez Michael Jackson. Outros fecham o Hopi Hari para uma festinha, como Xuxa. Outros escrevem um livro infantil para um milhão de leitores, como fez Madonna.

Mas é preciso dizer que o livro infantil de Madonna, As Rosas Inglesas (Editora Rocco), é tão ruim quanto um Big Mac frio. É ruim no conteúdo, embora tenha um invólucro legal, venha bem camuflado pelas ilustrações de Jeffrey Fulvimari (um discípulo do fotógrafo David LaChapelle), pela diagramação primorosa e pelo visual sixties inocente, às vezes psicodélico.

Madonna diz que o livro trata de inveja e ciúme, e de como esses sentimentos devem ser extirpados para que o ser humano se torne “bom”, “grande”, “iluminado”. Ou seja: é um livro de auto-ajuda para crianças – na verdade, situa-se mais na faixa pré-teen, para crianças que já saibam o que é dançar vogue techno e hip-hop.

Quatro garotas de classe-média inglesa, Nicole, Amy, Charlotte e Grace (as tais Rosas Inglesas), têm inveja de uma quinta, Binah, que é a mais bonita da escola, tem “pele de leite e mel”. Com a ajuda de uma fada, que lhes aparece num sonho coletivo, elas descobrem que Binah, na verdade, tem uma vida sofrida. Que mora só com o pai e lava e passa e cozinha. Daí elas passam a admirar a outra, por sua condição de despossuída.

Dois pressupostos: Madonna presume que o despossuído seja geralmente um recalcado. E que os abastados sejam geralmente insatisfeitos. Uma menina com uma boneca só não pode ser feliz. Uma menina com um caminhão de bonecas tem de fazer caridade, olhar com pena os pobres. E ajudar os pais a limpar a casa não pode ser uma coisa normal. Claro, Madonna tem dezenas de serviçais.

“Pela primeira vez minha criatividade não foi movida por ego ou pela ganância”, disse, num rasgo de sinceridade, a cantora americana. Em arte, isso não quer dizer nada. Que o diga Arthur Rimbaud, o magnífico poeta que negociou escravos na Abissínia.

Originalidade

Há também um problema de falta de originalidade na história da cantora. Madonna cita explicitamente Cinderela no “calvário” da menina Binah. E a velha fada que ensina por caminhos transversais também não é propriamente um achado.

OK, os contos clássicos infantis são permeados pelo moralismo. Os meninos viram burricos em Pinóquio porque saem para o Parque de Diversões sem consultar as mães. Mas o que significa isso no século 21? O que se quer dizer com isso? Madonna explica que o ponto é que estamos todos conectados uns aos outros ao nível da alma. Desculpe a senhora Guy Ritchie, mas alguns amigos não vão gostar nadinha se alguém chegar dizendo a eles que têm alguma conexão com George W. Bush, por exemplo. Nem ao nível da alma nem ao nível da ignorância terrena.