Foto: Robyn Beck

Paul Haggis, de Crash.

Nem todo o favoritismo de O segredo de Brokeback Mountain foi o suficiente para o filme de Ang Lee sair consagrado do Oscar 2006, anteontem. Para surpresa geral em Hollywood, o drama racial do diretor Paul Haggis, Crash – no limite, recebeu três estatuetas da Academia, entre elas a de melhor filme. Pela primeira vez apresentando a cerimônia, o comediante Jon Stewart conseguiu manter o repertório tradicional de piadinhas americanas arrancando risadas da platéia, e o melhor, sem entediar o telespectador. Com o tempo de discursos e agradecimentos limitado, o Oscar ficou mais dinâmico e com poucas falhas.

Às 22h (horário de Brasília), Nicole Kidman subiu ao palco para anunciar o primeiro premiado da noite. Como já era esperado, George Clooney recebeu sua única estatueta pelo trabalho como ator coadjuvante em Syriana. Logo em seguida quem subiu ao palco foi o ator Ben Stiller. Trajando uma roupa extravagante que o fazia parecer com o Duende Verde do Homem Aranha, o comediante atuou no palco do Oscar como se concorresse ao prêmio aberração da noite. Após a performance especial, a categoria efeitos especiais teve o vencedor anunciado, King Kong, de Peter Jackson e a mesma equipe vencedora por O senhor dos anéis. Junto com Crash, Brokeback mountain e Memórias de uma gueixa, foi o filme com o maior número de prêmios, contabilizando três estatuetas.

Com a entrega dos prêmios seguindo o protocolo, Jon Stewart chamou ao palco uma série de estrelas de Hollywood para apresentar as categorias. Reese Witherspoon, Russel Crowe, Jennifer Lopes, Charlize Theron, Jessica Alba, Eric Bana, entre outros, roubavam a cena a cada apresentação. Após uma hora de show foi a vez de o ator Morgan Freeman subir ao tablado para anunciar a vencedora na categoria melhor atriz coadjuvante. Seguindo as previsões, Rachel Weisz levou o prêmio por seu trabalho em O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles. Nos agradecimentos a atriz elogiou Meirelles, lembrando que sua atuação se devia em parte a ?seu diretor?. "Além de profissional ele é uma pessoa muito humana", pronunciou.

Na metade do Oscar foi a vez de o presidente da Academia de Artes e Ciência, Sid Ganis, subir ao palco para agradecer e discursar. Ele lembrou os avanços tecnológicos do cinema e enfatizou que o mais importante era a forma de contar histórias e compreender o mundo. Essas palavras são uma referência clara aos filmes de média produção deste ano, exceto Munique, finalizado após US$ 75 milhões. Ganis encerrou falando da magia que é assistir a um filme no escuro das salas de cinema junto com todo tipo de pessoa. Essa frase soou como um apelo ao público, já que em 2005 as bilheterias americanas registraram uma baixa superior a 30% em relação aos últimos anos.

Um dos principais momentos do Oscar foi quando as atrizes Meryl Streep e Lily Tromlin subiram juntas ao palco fazendo um jogo de diálogos trocados simulando espontaneidade e falaram sobre a importância de fugir do roteiro e ser natural. Esse era um dos momentos mais marcantes do cinema. O trocadilho das atrizes era o convite para que o diretor Robert Altman surgisse por trás das cortinas para receber o Oscar Honorário por serviços prestados ao cinema. Nos agradecimentos ele lembrou a importância de encorajar os atores a tentar coisas novas e afirmou que seus projetos favoritos são aqueles que ele não sabe como realizar. Aos 81 anos de idade, Altman já participou de oitenta filmes nos cargos de produtor, diretor e roteirista.

As principais categorias começaram a ser anunciadas quando a atriz Hilary Swank apareceu para anunciar o melhor ator. Como o esperado, Philip Seymour Hoffman conseguiu seu primeiro Oscar no primeiro papel representativo de sua carreira. Ao protagonizar Capote o ator abriu os olhos de Hollywood para seu excelente trabalho. Fica a expectativa que seus próximos papéis não se resumam a trabalhos coadjuvantes como foram em anos anteriores. Jamie Fox entregou a estatueta de melhor atriz para Reese Witherspoon. Aos 29 anos, a atriz entra para o hall das belas atrizes que também possuem talento.

A grande surpresa da festa ficou guardada para o final. O clima de mistério tomou conta da platéia quando Tom Hanks subiu ao palco para anunciar o melhor diretor de 2006. Realmente era difícil que o taiwanes Ang Lee não faturasse os prêmio de direção e filme, ou pelo menos um deles. E foi assim que aconteceu. O diretor de Taiwan ficou com o prêmio de melhor diretor. Em seguida o excêntrico ator Jack Nicholson subiu ao palco em grande estilo para anunciar o melhor filme. No que abriu o carta e enquanto lia o nome do filme com um jeito de quem não acreditava nos próprios olhos, Crash se consagrou como o melhor longa-metragem. Quem fez a festa foi o diretor Paul Haggis, que além de filme ficou com o prêmio de melhor roteiro original, junto com Robert Moresco, e seu filme ainda levou a estatueta de melhor montagem. Brokeback ainda levou o prêmio nas categorias roteiro adaptado e trilha sonora.

A Academia Americana parece ter aberto os olhos para estilos e realidades diferentes do habitual americano. O fato se observou já nas indicações. Mas abrir os olhos e aceitar o que se vê já não é tão fácil. O vencedor do Globo de Ouro em filme estrangeiro, Paradise now, perdeu para o sul-africano Tsotsi. Já Brokeback mountain, apontado pela crítica e classe artística como o melhor filme, e polemizado pela sociedade por abordar relações homossexuais, foi forte demais para a tradicional Academia de Artes e Ciências.