Há 28 anos, foi inaugurada em Curitiba a primeira Gibiteca do Brasil. Sete anos depois, abria as portas uma das pioneiras lojas do País especializada em HQs, a Itiban Comics Shop.

A primeira, com cursos, exposições e títulos para leitura e a segunda com eventos de lançamento e disponibilizando exemplares do mundo todo. Juntos, os espaços impulsionaram a produção e traçaram o panorama dos quadrinhos na cidade.

Mesmo antes de entrar percebemos que a estética do lugar se afina com o aspecto dos quadrinhos. Na fachada da Itiban Comics Shop, uma pintura de Jorge Torres Galvão indica que ali se pensa em arte. Logo que colocamos os pés lá dentro, na Avenida Silva Jardim, imergimos em um universo que tem no desenho a sua principal fonte de inspiração.

O casal Chico Utrabo e Mitie Taketani abriu a loja há 20 anos, em uma época em que a produção de quadrinhos aumentava e, consequentemente, começavam a surgir pessoas interessadas em conhecer um pouco mais sobre as HQs.

Foi justamente da dificuldade em ter acesso à produção que apareceu a vontade de ter uma atividade que unisse entusiasmo com alternativa de sustento. De outubro de 1989 – quando as portas se abriram pela primeira vez – até julho de 2010, muita coisa mudou.

O mercado de quadrinhos se profissionalizou ainda mais com o surgimento de diversas vertentes de produção, o diálogo mais próximo com o cinema e a explosão do consumo.

Mas, ao mesmo tempo, Chico e Mitie se sentiam em parte ameaçados pela facilidade em encontrar facilmente na internet os mesmos produtos que tinham na loja.

“Hoje existem muitas ferramentas na internet. Sentimos essa concorrência, mas nada se compara a folhear um livro nas mãos, gera uma sensação de bem-estar incomparável”, destaca Chico.

Quando falamos em quadrinhos, estamos falando também do suporte onde ele está impresso, da textura do papel, da sutileza dos traços e cores dos desenhos. “Não se compara ao IPAD ou a uma tela de computador”, destaca Chico, que também é músico, e dá grande valor ao aspecto sensorial que o virtual não pode trazer. “Estamos quase materializando o virtual, mas pra gente [dos quadrinhos] a mídia é desenhada e tem uma história por trás disso”.

A procura na loja é grande. Várias vezes, tivemos que interromper a entrevista para Chico atender aos clientes: crianças, adolescentes e adultos. Ele conta que a freguesia é eclética “dos 8 aos 80”, em meio a admiradores e colecionadores de quadrinhos.

Daniel Caron
Há 20 anos, Chico Utrabo abriu a Itiban Comics Shop em Curitiba.

“Tenho um cliente que é arquiteto e construiu uma casa com uma forma de ventilação e entrada de luz de acordo com cada estação do ano. Tudo para preservar a coleção”. Chico lembra que ainda teve outro que comprou um segundo apartamento para abrigar o enorme acervo de HQs.

Gibiteca

A Gibiteca do Solar do Barão, no centro, também conserva uma grande coleção que chega perto de 50 mil títulos de todos os gêneros. Desde 1982, ano em que foi criado, o local oferece, além de empréstimos e consultas de HQs, oficinas de criação, exposições, palestras, lançamentos e encontros de RPG.

O lugar é dividido por sessões (heróis, infantis, humor, terror, cartuns, séries, nacionais, mangá, estrangeiros, livros de RPG e antigos) e ainda guarda exemplares da produção de artistas da cidade, como José Aguiar e Carlos Magno.

O quadrinista José Aguiar é formado em artes plásticas pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e foi impulsionado para a carreira profissional depois de fazer cursos na Gibiteca. Zé Aguiar, como é conhecido pelos amigos, também deu aulas n,o lugar e reconhece a importância de um espaço como esse.

“Além dos interessados em frequentar os cursos, há o público que freqüenta para ter acesso aos materiais. Eles tem um arquivo maravilhoso para pesquisa. Lá é um ponto focal e tem uma tradição como ponto de referência”.

Grandes quadrinistas

Como Carlos Magno, Aguiar foi influenciado desde a infância por histórias em quadrinhos do Batman, Hulk e Homem Aranha. Com o tempo, veio a vontade de produzir as suas próprias histórias e, aos 16 anos, começou a fazer tirinhas para jornais com o personagem O Boi.

Hoje, ele desenha para editoras, livros e revistas e, nas últimas décadas, tem trabalhado no mercado internacional. Na França, participou da coletânea Flying Doctors – Un jour de mai e ilustrou dois álbuns da série de aventura Ernie Adams, publicados por Editions Paquet.

O artista, que gosta de misturar diferentes estilos, aplicou a linguagem multifacetada dos quadrinhos em projetos envolvendo teatro e cinema. Aguiar desenvolveu o projeto gráfico do personagem Artie, do espetáculo Graphic e, junto com o quadrinista DW, fez as ilustrações do filme Morgue Story – Sangue, baiacu e quadrinhos, dirigido por Paulo Biscaia.

Divulgação
Projeto gráfico de Zé Aguiar, criado para espetáculo da Cia Vigor Mortis.

O trabalho ainda vai se desdobrar em dois álbuns de histórias em quadrinhos que serão distribuídos para livrarias de todo o Brasil, chamados Vigor Mortis comics, projeto aprovado através do Edital de Mecenato Municipal.

“Pegamos os personagens principais e criamos peças novas para quadrinhos, que será lançado no segundo semestre. Foi um processo muito bacana”. O quadrinista Carlos Magno, outro expoente do gênero, mora em São José dos Pinhais e trabalha com as principais editoras do mundo.

A trajetória do artista foi inversa, já que ele começou a carreira na DC Comics, onde fez o Jonah Hex. Depois, trabalhou com a gigante Marvel Comics, desenhando O incrível Hulk, Surfista prateado e Capitão Universo.

O artista também esteve em editoras menores, como Boom Comics, Avatar e Moonstone, onde trabalhou com O fantasma e Sherlock Holmes. O último trabalho, Transformers – Nefarious, da norte-americana IDW Publishing, foi lançado no final de junho.

O termo “arte sequencial” (sequential art) foi criado pelo quadrinista americano Will Eisner para definir “o arranjo de fotos ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma ideia”.

Um aspecto que não pode faltar para um quadrinista, diz Magno, é o domínio da linguagem narrativa, essencial para um bom trabalho. “A principal missão do quadrinho é passar a mensagem da história através do desenho, sem necessariamente precisar ler o texto”.