Debate em televisão é um cacoete sociopolítico inescapável para o veículo que assim foge dos massacrantes intervalos comerciais e finge demonstrar animus participandi em problemas comunitários.

São cuidadosamente incluídos em horários que não prejudiquem o faturamento e têm por finalidade específica demonstrar o quanto adoram os formadores de audiência, no caso, os telespectadores.

Geralmente são uma salada mista preparada pelo Capeta e têm o condão televisivo de se transformarem em programas humorísticos onde um apresentador tenta manter os candidatos sob o jugo do cronômetro numa segundagem prussiana. Desse jeito não há espontaneidade que agüente.

A regra manda que o apresentador seja um cara desconhecido dos participantes, por segurança. Se for uma figura televisiva conhecida na cidade corre o risco de ser empalado num mastro de aroeira, na saída do estúdio, por partidários daqui ou dali, inconformados pela maneira como “conduziu” os debates, na escala de favorecimento deste ou daquele candidato.

Os debates chamados gloriosamente de “palanques eletrônicos” possuem um regulamento mais rígido do que aço-cromo vanádio.

O candidato convidado recebe um catatáu de regras que deverá obedecer no estúdio. Eis algumas:

1 – Dez segundos para fazer uma pergunta a um candidato sorteado;

2 – Trinta segundos para responder;

3 – Vinte segundos para réplica;

4 – Quinze segundos para tréplica;

5 – Não são permitidos gestos agressivos ou ofensivos como por exemplo um dedo indicador apontado para a cara do outro e nem aquele gesto do dedo médio levantado, ainda que disfarçadamente;

6 – É expressamente proibido soltar pum no estúdio, principalmente aqueles fininhos escaldantes que podem tirar a emissora do ar, derrubando a torre de transmissão e desmaiando o apresentador;

7 – Pigarrear pode, mas sem soltar perdigotos na direção de qualquer debatedor;

8 – Insinuações também são proibidas mesmo que o candidato adversário esteja participando com um habeas corpus preventivo no bolso e dois advogados de plantão na porta do estúdio, pelas dúvidas;

9 – O candidato deve manter postura ereta na cadeira, firme, ainda que isto lhe custe cãibras ou dormência na bunda;

10 – É permitido respirar, mas não sofregamente, o que denotaria irritabilidade para com o adversário debatedor;

11 – Vá ao banheiro antes de entrar no estúdio porque não é permitido deixar o debate para mijar;

12 – Gritar é proibido. Se o oponente mostrar um documento xerocado de alguma trampolinagem que você andou fazendo com meninas da vizinhança é permitido gemer (não muito alto);

13 – Não é permitido levar pipocas nos bolsos porque estas podem se transformar em projéteis endereçados ao olho de um debatedor;

14 – As promessas embutidas em seu plano de campanha devem ser absolutamente genéricas; não esqueça de usar a palavra “luta”, tipo “nossa luta”, “a luta do povo”, “é preciso lutar”, não use a expressão “minha luta” que vai parecer livro de Hitler Mein Kampf;

15 – Não esqueça de citar os pobres e periferia. Pobre pega bem em qualquer discurso político e periferia sempre está necessitada de alguma coisa, menos de ladrões, assaltantes e traficantes de drogas;

16 – Fale de injustiças sociais, discriminação racial, não diga que o brasileiro é um povo doente e por isso não há SUS que agüente mais essas filas hospitalárias que só aumentam;

17 – Fale de Educação. Não precisa ser em escala universitária; fique naquela de baixo onde as escolas estão caindo aos pedaços, os professores apanhando de alunos e pais e alunos, ganhando uma merreca e sendo obrigados por lei a aprovar analfabetos;

18 – Não tente reformar hábitos culturais enraizados como jogar lixo nos rios e ribeirões, acabar com matas ciliares, usar celular dirigindo, sonegar impostos ou misturar água no leite, chegar atrasado aos compromissos ou subornar guardas de trânsito, etc.; são leis sociais inamovíveis e pétreas que jamais serão modificadas;

19 – Veja que, com vale-gás, bolsa-escola, vale-transporte, luz e água de graça e o SUS funcionando, além de cesta básica e pagamento de renda mínima, os governos estaduais e federal estão institucionalizando a pobreza como meio de vida. Nesses casos, seja diplomata: cutuque de leve, sempre pedindo mais;

20 – Nunca diga uma verdade por inteira, fale só meia verdade; o seu oponente vai ficar uma arara maluca por não poder estraçalhá-lo na réplica ou tréplica;

21 – Vale a pena mentir e insistir na mentira com determinação e frieza. Esta acaba virando verdade e ninguém o contestará;

22 – Faça promessas, mas só pela metade. Não prometa 10 milhões de empregos, como Lula fez. Prometa só 5 milhões. O número parecerá razoável e o eleitor tende a esquecer números razoáveis 3 meses após as eleições;

23 – Fale firme e pausadamente; não esganice. Antes de ir para o estúdio faça um gargarejo com bicarbonato ou tome uma dose de pinga, daquelas brabas, de deixar urso polar suando;

24 – Não seja manso de fala, nem de gestos. A sociedade não respeita quem apanha, só respeita quem bate. O escritor americano Fletcher Knebel disse, no livro O Candidato que “candidato afável e tíbio não inspira cruzadas”. Lembre-se de que, no caso, a sua cruzada é por um emprego público;

25 – Não tente se nivelar ao eleitor vendendo o BMW e o Rolex. Ele não gosta de votar em alguém que seja seu igual, andando de fusca e relógio marreta. Mantenha seus status social. O eleitor quer que você o ajude a chegar lá. Pelo menos, sonha isso;

26 – Não tente resgatar nada da memória do eleitor. Este não tem memória política. Um mês depois das eleições ele não se lembra mais em quem votou. Faça seu show como se fosse a primeira vez;

27 – Se perder a eleição não procure culpados entre os eleitores, nem fale em ingratidão, desconsideração, falta de respeito pela sua pessoa, sabotagem de partido, babilaques desse tipo. Se perdeu a eleição o único culpado foi você mesmo.

Wilson Silva

é jornalista e escritor (do livro “Quentes & Frios Receitas Caseiras de Marketing Político”)