Existem filmes que, por mais que você queira ser profissional e analisá-lo friamente, livre de paixões, torna-se uma tarefa impossível. São aquelas produções que, de uma maneira ou outra, marcaram sua vida, faz com que você se identifique com o que está sendo exibido na tela.

Por essas e outras é que não foi possível ser indiferente na hora de assistir o documentário Senna, que aborda a vida daquele que foi um dos maiores heróis que o Brasil já viu: o piloto de Fórmula-1 Ayrton Senna da Silva, que nos deixou prematuramente no dia primeiro de maio de 1994, aos 34 anos, após chocar-se contra um muro no Grande Prêmio de San Marino.

Certamente aqueles que costumavam acordar mais cedo no domingo ou mesmo ficar acordado de madrugada só para assistir às corridas e vibrar com cada show que Senna dava na pista, irão encontrar aqui uma passagem para as boas lembranças que esta figura carismática causou.

Do ponto de vista técnico, o longa-metragem é correto, funcionando como um relógio. Entretanto, abordar estas questões seria um desperdício de tempo para o leitor. Vamos ao que interessa: o protagonista.

Senna foi para mim, e muito provável para muitos brasileiros, o último piloto de automobilismo de uma era romântica, em que quem fazia a diferença era o piloto, que dependia basicamente de suas habilidades e talento, e nem tanto do carro.

Ele mesmo parecia ter consciência disto. Logo no início ele lembra quando esteve no kart e afirmava que “era uma época boa, em que não havia dinheiro e político na jogada”. Se ele fosse vivo hoje, certamente teria vergonha em ver a antidesportividade no jogo de equipe, principalmente feito pela Ferrari.

Boa parte da trajetória do tricampeão mundial de F-1 é exibida na tela. A corrida em que ele chamou a atenção do mundo (Grande Prêmio de Mônaco, em 1984) pela equipe Toleman, em que chegou na segunda colocação, a sua primeira vitória na categoria, já pela equipe Lótus (Grande Prêmio de Portugal, em 1985), a emocionante vitória no Grande Prêmio do Brasil, em 1991, em que ele deu seis voltas apenas com a sexta marcha, sendo obrigado a segurar o carro no braço, as conquistas dos três campeonatos (88, 90, 91) pela McLaren, sua trágica morte, entre outros.

Porém, não são apenas imagens de Senna pilotando. Há também diversas entrevistas, momentos de descontração, a sua relação com o piloto francês Alain Prost, que de amizade virou ódio, com duelos memoráveis entre os dois (percebe-se a importância de Senna no meio esportivo ao ver que Prost, seu antigo nêmesis, participa como um dos narradores do documentário), bastidores das corridas (que muita gente por aqui não deve ter visto) e até mesmo aquilo que muita gente até duvidava: mesmo sendo considerado um mito, Senna também cometia erros.

Mais do que obrigatório para seus fãs, o documentário Senna é recomendado também àqueles que não tiveram a oportunidade ver como as corridas de Fórmula-1 eram emocionantes, disputadas volta a volta, em que o homem dominava a máquina. Bons tempos que, infelizmente, não voltam mais.