Bucci presidiu a Radiobrás no primeiro mandato do governo
Lula. Ele afirma que não aceitaria novamente um outro desafio
como esse.

No livro Em Brasília, 19 horas, Eugênio Bucci, um dos mais respeitados jornalistas do País, relata sua trajetória à frente da Radiobrás durante o primeiro mandato do governo Lula. É a primeira vez que uma obra conta como funciona e opera, por dentro, a comunicação do governo no Brasil. O autor revela sua experiência pessoal à frente da Radiobrás, à qual procurou imprimir um caráter apartidário – a empresa deixaria de ser um órgão com a finalidade de construir uma imagem favorável de governantes para adotar a missão de dar ao público a informação que ele tem o direito de receber. Uma trajetória de conquistas e também de duros embates travados nos bastidores do poder. Esta é a história saborosamente contada no livro Em Brasília, 19 horas.

Ao contar esta experiência, o autor abre um importante debate sobre comunicação pública no Brasil. Defende que ela exista como instrumento a serviço do cidadão e contribui para definir seu papel numa sociedade democrática. ?Foi um caminho árduo, mas em larga medida foi coroado de êxito?, avalia Bucci, um ano depois de ter saído da presidência da Radiobrás, que presidiu entre janeiro de 2003 e abril de 2007.

Neste livro, o jornalista revela os êxitos e também as muitas dificuldades que encontrou para levar à frente seu projeto de transformar a Radiobrás – começando pela carência crônica de recursos, passando por intrigas palacianas, corporativismos, cascas de banana lançadas até por ministros de Estado.

P – O que foi determinante para que o senhor aceitasse a presidência da Radiobrás?

R – Eu tinha vontade de participar do governo Lula, mas tinha vontade de participar exercendo a minha profissão, que é o jornalismo. Quando surgiu o convite para presidir a Radiobrás, uma empresa pública de comunicação, julguei que tinha preparo para assumir o posto e era uma proposta adequada às expectativas que eu tinha. Achei, desde o início, que seria possível imprimir uma linha diferente à empresa, focada no atendimento do direito à informação do cidadão e não mais com a divulgação da imagem dos governantes

P – Como se deu a reestruturação da Radiobrás?

R – O livro detalha muito o método dessa caminhada. Penso, aliás, que expor o método da gestão, baseado em planejamento, governança, inovação e participação é uma das principais justificativas que me levaram a publicar esse livro. Trata-se de compartilhar uma experiência – válida, a meu ver – de gestão pública.

P – O senhor diz, logo no início do livro, que ?ousou vencer? a cultura de partidarismo e de governismo em sua gestão à frente da Radiobrás, mas que ela, ainda assim, sobreviveu à sua gestão. Como isso foi possível?

R – O governismo, sempre enfatizei, é uma forma de partidarismo com agravante, porque é um partidarismo com apoio, por assim dizer, da máquina pública. O partidarismo e o governismo sobreviveram à minha gestão porque são hábitos profundamente arraigados no modo de proceder da empresa. O governismo, o impulso de agradar, de fazer a vontade dos governantes é um traço muito mais consagrado do que se pensa. Em algumas áreas, como na Agência Brasil, as mudanças que implementamos aconteceram com mais rapidez e foram mais longe. Em outras, como na televisão, não tivemos tanto sucesso. Para saber o que deu errado, e como, só mesmo lendo o livro.

P – O ex-deputado José Dirceu, então chefe da Casa Civil durante sua gestão à frente da Radiobrás, fez críticas duras às suas ?idéias?. O senhor acha que sua amizade com ele lhe fez ser reticente nas críticas?

R – Creio que não. O então ministro José Dirceu tinha uma outra visão em relação ao que deveria ser feito na Radiobrás, o que é natural. Como a empresa não estava vinculada ao ministério dele, nós nunca tratamos disso regularmente. Mas, no final da gestão, creio que os princípios que eu sempre defendi foram os princípios que prevaleceram.

P – Quais os principais pontos de convergência e divergência entre o jornalismo praticado hoje nas empresas públicas e privadas?

R – Esta é uma resposta difícil. Acho que não dá para falar em termos genéricos. Posso dizer que, durante a minha gestão na Radiobrás, procurávamos cumprir uma função pública, a de informar o cidadão sobre os temas que afetam seus direitos, de um modo objetivo, apartidário, sem uso de nenhuma informação em off.

P – Uma das características do governo Lula é o afastamento que ele mantém da imprensa. Como isso era digerido pelo senhor e pela Radiobrás? O Café com o presidente era uma maneira de amenizar essa falha?

R – Não acredito que o programa de rádio do presidente, seja no governo Lula ou nos governos anteriores, possa servir de compensação para um eventual afastamento entre o presidente e a imprensa. De minha parte, não me cabia administrar o relacionamento entre o presidente e a imprensa. Isso não figurava nas minhas atribuições.

Portanto, eu não me ocupava disso. O que me cabia era produzir o programa de rádio do presidente, o Café, mas isso não tinha relação alguma com a distância ou a proximidade do presidente com os repórteres ou com a imprensa de modo geral.

P – A meta de acabar com a obrigatoriedade da Voz do Brasil foi, talvez, o principal ponto em que o senhor não conseguiu êxito em sua gestão. O senhor ainda acredita numa mudança a curto ou médio prazo?

R – Acredito, sim, que um dia essa obrigatoriedade cairá por terra. É difícil precisar um prazo, mas que ela cairá, cairá. Nem que seja por desuso.

P – Houve algum momento em que pensou em entregar os pontos?

R – Houve, sim, um momento em que julguei que o trabalho que eu e minha equipe tentávamos levar adiante não contava com o apoio necessário na cultura média do governo. Eu sentia que estávamos investindo muita energia em uma luta inglória, que não iria adiante.

O clima ficou um pouco mais tenso a partir de meados de 2004 e piorou durante o ano de 2005, quando explodiu o escândalo que foi batizado de ?Mensalão?. De um lado, a sensação que nós, os dirigentes da Radiobrás, tínhamos, era uma sensação de que estávamos isolados, como se falássemos na contramão. De outro lado, aos poucos, fomos percebendo que havia, sim, retomo para o nosso trabalho, tanto na sociedade como em setores do próprio governo.

Para mim, particularmente, isso foi um fator revigorante e, embora eu tenha, sim, balançado entre sair ou ficar, prevaleceu a decisão de ir até o fim do governo. Foi o que fiz e não me arrependo.

P – O senhor diz que não pode haver ética jornalística em uma empresa controlada pelo governo. O que foi mais difícil: manter a ética ou o governo afastado das decisões editoriais?

R – O mais difícil foi convencer os funcionários de que eles não deveriam pensar nos governantes, mas apenas no cidadão, no instante em que tomavam decisões administrativas ou editoriais. Isso implicava uma ruptura no hábito consagrado por décadas. Isso foi o mais difícil de tudo. Em algumas áreas, fomos bem sucedidos, como no caso da Agência Brasil. Em outras áreas, as mudanças foram mais lentas.

P – O senhor acredita que conseguiu livrar a Radiobrás do ranço de um órgão criado durante a ditadura?

R – Em parte, creio que sim, mas apenas em parte. Alguns dos antigos hábitos permaneceram na cultura da empresa, e meu livro trata disso com profundidade.

P – Se chamado, o senhor aceitaria novamente um desafio semelhante no governo Lula ou em um próximo?

R – Em governo, de modo algum. Quanto a participar de alguma instituição pública, nos dias de hoje, apenas em caráter consultivo. Sou membro do conselho curador da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura de São Paulo). É uma função não remunerada. Nesse nível, ainda aceito participar.