Fiel à sua tradição de apresentar bons títulos ibero-americanos, o Cine Ceará teve dois pontos altos de sua programação com a apresentação do concorrente espanhol (basco, na verdade) Emak Bakia, de Oskar Alegria, e do mexicano El Paciente Interno, de Alejandro Solar Luna. São dois exemplares de documentários bastante diferentes em estilo, forma e intenção, porém ambos impressionantes. Não há dúvida: o cinema documental vive um boom internacional, do qual o Leão de Ouro em Veneza para Sacro GRA é apenas um sintoma mais evidente.

De qualquer forma, beneficiados pelas novas tecnologias, nos últimos anos os documentários expandiram-se, violaram fronteiras de gênero e apropriaram-se de técnicas narrativas da ficção. É o caso de Emak Bakia, expressão basca que significa “Deixe-me em paz!”. Esse é o ponto de partida de um estudo investigativo de Alegria, tomando por base uma casa, na costa basca, na qual o vanguardista Man Ray rodou, nos anos 1920, um de seus filmes. Que tem exatamente esse título – Deixe-me em Paz. É um trabalho não narrativo, como são os de Man Ray, em tom impressionista, com detalhes da casa e da luz do mar.

Oskar Alegria vai atrás dessa casa basca dispondo de poucos indícios deixados nos fotogramas de Man Ray. Na verdade, não tenta uma investigação em linha reta, mas age por círculos e desvios, guiado por indícios como frases musicais, cartões postais e cartas que o levam ao encontro das (poucas) pessoas que sobreviveram àquela época, entre as quais se encontram um palhaço aposentado e uma princesa romena de 90 anos. É quase um processo de livre associação e, em seu filme, Alegria deixa-se contaminar pelas ideias do automatismo da mente, em voga no surrealismo dos anos 20 e, em parte, inspiradas pela psicanálise de Freud.

A história é daquelas em que a procura vale bem mais do que o resultado alcançado. Na estrada, imaginária e mental, em que se coloca, Alegria descobre não poucas coisas do seu país, em especial do seu passado. Mas mesmo o fim do caminho não se mostra inócuo. “É como uma metáfora do país basco, em que uma casa, construída pela aristocracia nos anos 20, acaba servindo de colônia de férias para trabalhadores franceses no século 21”, diz. De fato, a “villa”onde filmou Man Ray já não tinha esse nome. Ele fora coberto pela poeira de gerações diferentes, guerras, crises econômicas, doenças e mortes. Por fim, a residência tornou-se propriedade de uma companhia aérea que a destinou ao descanso dos funcionários. É um filme muito revelador, além de belo e bem construído.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.