Em meio a uma catarse literária, o compositor e escritor curitibano Carlos Machado faz de Poeira Fria (Arte & Letra) um verdadeiro acerto de contas com o passado e, por que não?, com o futuro. Assim como o catalão Enrique Vila-Matas, Machado usa o fracasso para criar uma história verborrágica, na qual o protagonista, que não recebe nome – e, da mesma forma como disse Wilde, não vive, apenas existe – passa sua vida limpo em consultas com uma analista.

Tentando se salvar da perda de um amor, o livro não é outra coisa, senão um atestado de mea culpa, que coloca um ponto final na relação com a Menina de Manaus que, depois de gravar suas músicas, dizer-lhe quando cortar o cabelo e que roupa comprar,  saiu feito um relâmpago de sua vida. Entretanto, não é ausência que lhe fez mal, afinal, “ninguém morre de amor. Definha-se sem ele, isso sim”.

Como Tezza, em O Filho eterno, ou Coetzee em Verão, Carlos Machado não deixa que os erros passem em branco, mas não faz isso como um exercício malfadado de autopiedade, ao contrário, elencando o catálogo de erros o autor evoca os ecos do pensamento para se libertar e conseguir seguir em frente.

 Palco urbano

 A fotografia da orelha e contracapa mostra a frieza da cidade, talvez uma referência inconsciente ao longa argentino Medianeiras de Gustavo Taretto, só que, enquanto no filme o ambiente urbano é fator que une o casal, em Poeira Fria, a cidade serve de aparo para a separação, distanciando os corpos, mas não, necessariamente, afastando o sentimento.

Apesar de Curitiba ser o cenário principal, o livro consegue através do fluxo de consciência e da própria lembrança, ao melhor estilo clariceano, com que o leitor se defronte com a Paris festeira de Hemingway, e também com Londrina, Maringá e, em alguns casos, uma Curitiba daltoniana.

Poeira Fria, junto com o CD Longe, lançado recentemente e que também trata da perda, é um verdadeiro manual de sobrevivência, que deixa claro as adversidades do cotidiano desse imenso palco urbano.