A Feira do Livro de Frankfurt encerrou sua edição em homenagem ao Brasil como começou: política. Escolhido para representar o País na cerimônia de passagem do bastão para o convidado de honra de 2014, no caso, a Finlândia, o escritor Paulo Lins quebrou o protocolo. Em vez de responder à primeira pergunta do escritor Thomas Böhn, que mediava o debate entre o brasileiro e a escritora finlandesa Rosa Likson, ele leu um texto em que mandava um “saravá” aos professores do Rio e comentava sobre o abaixo-assinado que circulou entre os escritores em defesa da escola pública e em repúdio à violência policial.

Falou também sobre o fato de só haver um negro e um indígena na comitiva oficial. “Sabemos que o Brasil é um país racista, como são todos os países da Europa. Mas não houve racismo na lista de escritores convidados. Ela foi feita com base no mercado editorial brasileiro e internacional. Não é uma lista com o melhor da produção literária brasileira. Tudo aqui é mercado.”

Autor de Cidade de Deus e de Desde Que o Samba é Samba, ele mencionou o discurso de abertura e, dirigindo-se a Luiz Ruffato, disse: “Faço minhas as palavras de seu discurso. Foi uma declaração de amor ao Brasil. Uma fala de esperança. A verdade tem que ser dita e encarada para alcançarmos mudanças substanciais na sociedade brasileira tão sofrida, tão marcada pela violência e pelas injustiças sociais. Por isso, deixo sem comentários a palavra do nosso vice-presidente e aviso que a poesia é uma coisa séria. Ela não se dá com qualquer um.”

Terminou sua participação lendo um poema escrito aos 20 que diz, logo no início: “Fui feto feio feito no ventre do Brasil /Estou pronto para matar /Já que sempre estive para morrer”.

A manifestação brasileira foi destacada, e comemorada, pelo presidente da feira, Juergen Boos. “Vimos um Brasil que se angustia consigo mesmo, e que vai para a frente com sua criatividade.” Renato Lessa, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, comentou, antes de passar o bastão para a Finlândia: “Esse bastão representa a alegria imensa de ter estado aqui com essa programação que buscou mostrar a variedade e o grau de liberdade que o povo brasileiro atingiu, expressa através de seus artistas e de seus criadores.”

O escritor Luiz Ruffato, autor de Eles Eram Muito Cavalos e Domingos Sem Deus, entre outros publicados no Brasil e no exterior, sobretudo na Alemanha, onde ainda passa as próximas semanas em encontros com o público, falou à reportagem sobre o já histórico discurso feito na terça-feira – e que continuou reverberando por todos os dias e espaços da feira. Em sua fala, ele descreveu o Brasil, com todas as suas estatísticas assustadoras de desigualdade social ao mesmo tempo em que contou sua trajetória de filho de lavadeira analfabeta e pai pipoqueiro semianalfabeto, que conquistou seu espaço graças à literatura.

“Sabia que haveria reação porque era um discurso que tenta discutir um país que a gente só discute em botequim, mas não publicamente. Há dez anos falo isso e os meus livros tratam dessa realidade. Como fui convidado para abrir a Feira de Frankfurt, que é uma feira de livros, onde se discute livros, portanto, onde circulam ideias, achei que era o meu dever trazer essa discussão pra cá”, disse.

Ele recebeu manifestações de solidariedade e algumas ofensas. “A internet está cheia de agressões dos mais baixos níveis, inclusive de colegas escritores, o que acho inacreditável. Houve um certo constrangimento na hora do café da manhã de alguns colegas, que preferiam fingir que eu não estava ali, e alguns brasileiros que estavam na feira tentaram me agredir.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.