Em Quase tudo é risível, estamos diante de um daqueles joguinhos de ligar pontos até que, voilà, a imagem do todo apareça. Uma narrativa que dá saltos no tempo e no espaço e que nos sugere as costuras em vez de entregá-las prontas, convidando o leitor para compor o mosaico que formará um corpo coeso à medida que a leitura avance.

Trata-se de um desafio estilístico presente tanto na composição macro da obra quanto em seus detalhes sintáticos, uma vez que as convenções da narrativa tradicional são minadas por mudanças súbitas de pontos de vista, transições rápidas entre discurso direto e indireto, e uma pontuação que dá muita fluidez à leitura.

Cristina Bresser acompanha a vertigem dos acontecimentos com uma agilidade que, no entanto, não descuida dos detalhes, das minúcias que temperam a ação das personagens, sobretudo da protagonista, mulher cheia de vitalidade que – ironias espalhadas pelo caminho – flertou com a morte.

O leitor vai perceber que há uma alegria vicejante no texto, fruto da escolha das palavras, das comparações risíveis, dos disparos surdos deixados no ar pela protagonista com suas frases diretas e muitas vezes desconcertantes. O ritmo frenético da narrativa decorre de uma personagem com sede de vida. Ou vice-versa?

Se forma também é conteúdo, podemos dizer que estamos diante de um romance cuja estrutura contribui para a série de encontros e desencontros entre as personagens, para a dinâmica das múltiplas relações que ora se fortalecem e ora se fragilizam, tecendo com habilidade a desordem e o caos que compõem a própria vida.

De certo modo, a paixão é quem dá uma unidade latejante a esse Quase tudo é risível, mesmo que – ou melhor, por causa disso – a paixão se relacione tanto com o amor ardente e seu viés mais visível, que é o erotismo, como também com a doença (o pathos grego que origina a patologia) e o sofrimento. Todas essas paixões se encontram aí, à espera do leitor.