Claude Chabrol, que morreu dia 12, aos 80 anos, ganha homenagem do Eurochannel. O canal europeu da TV paga exibe um programa duplo dos mais atraentes. Começa com “Grande Carrossel – O Que Motiva Claude Chabrol?”, que é uma mesa-redonda em que ele fala de vida, e cinema, com a ex-mulher, Stéphane Audran, com o filho, Thomas, e com dois atores aos quais ofereceu belíssimos papéis, Michel Bouquet e Sandrine Bonnaire. Na sequência, passa “O Açougueiro” (Le Boucher), o longa de 1970 que, se fosse para escolher somente um filme do grande diretor, seria o favorito.

Chabrol foi casado por 16 anos com Stéphane Audran. Não há exagero em dizer que ela interpretou os filmes que o fizeram ressurgir como autor. Integrante da geração nouvelle vague, ele havia conhecido dois retumbantes sucessos – de público e crítica – logo no começo da carreira, com “Nas Garras do Vício” e “Os Primos”, ambos interpretados por Jean-Claude Brialy e Gérard Blain, no fim dos anos 1950. Seguiu-se uma fase errática, da qual Chabrol emergiu em 1967 com “O Escândalo”, com Tony Perkins, e em 1968, com “As Corças”, com Stéphane e Jacqueline Sassard.

No biênio 1969/70 ele consolidou seu prestígio com uma série de grandes filmes – “A Mulher Infiel”, “A Besta Deve Morrer”, “O Açougueiro” e “Trágica Separação”, os dois últimos de novo com Stéphane Audran. Todos eles tratam da burguesia de província, que o autor descreve – e critica – com virulência. Os críticos, por isso mesmo, disseram que ele era o Balzac do cinema e os filmes compunham a sua ‘comédia humana’. Em “Le Boucher”, Stéphane é professora numa pequena cidade de província. Liga-se ao atormentado açougueiro Jean Yanne. Crianças – seus alunos – começam a ser misteriosamente assassinadas. É o que você pensa, sim.

Embora Chabrol admirasse – e até tenha coescrito, com Eric Rohmer, um livro sobre Alfred Hitchcock -, seus policiais não seguem a trilha do mestre do suspense, como os de François Truffaut. Chabrol ligava-se muito mais no fatalismo de Fritz Lang, com sua noção do destino trágico (e asfixiante), do qual os personagens, mesmo lutando, não conseguem fugir. Próximas à cidade em que se passa a ação, existem cavernas com inscrições primitivas em suas paredes. Precedendo o desfecho, há um longo – e revelador – diálogo. As duas coisas estão conectadas. É um filme poderoso. E os atores – a atriz – não poderiam ser melhores. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Claude Chabrol – No Eurochannel, a partir das 20h, com reprise às 23h. Um especial com o diretor procede “O Açougueiro”.