São Paulo – O artista mineiro Gedley Braga nunca expôs em São Paulo e há cerca de dez anos não expõe no Brasil. Atuando durante parte desse tempo nos bastidores do sistema de arte – expressão que prefere usar – como coordenador do Laboratório de Conservação e Restauro do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, ele começou a ver o mundo da arte com outros olhos. Na mostra Love & Hate, que Gedley inaugura hoje no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, mostra trabalhos recentes que discutem a questão da representação e dos diversos poderes embutidos no sistema artístico. "Talvez meu trabalho se torne complexo por ser tão óbvio??, diz.

Sua exposição, desenvolvida como parte de seu doutorado em políticas culturais pela USP, é formada por diversas obras que se amarram entre si. Como diz Gedley, que teve sua formação como pintor, a raiz dessa atual mostra é "a arte conceitual?? e dessa maneira ele utiliza agora fotografias, negativos invertidos, frases – em inglês e em néon -, objetos e imagens de obras de outros artistas.

Para citar como exemplo, a série homônima Love & Hate é composta por uma seqüência de 55 fotografias. Todas elas seguem um mesmo padrão: de um lado, sobre fundo branco, trazem a palavra Power; de outro, sobre fundo negro, a imagem de uma obra de um artista admirado por Gedley (Cildo Meireles, Leda Catunda, Siron Franco e Carlito Carvalhosa são alguns dos escolhidos).

Todos os trabalhos desses artistas pertencem à coleção que Gedley vem fazendo há cinco anos e assim eles aparecem com as frases, em inglês, que sempre dizem a mesma coisa: Gedley ama ou odeia cada um dos artistas porque eles fizeram o que ele queria fazer.

O uso da língua inglesa torna o trabalho impessoal, assim como a repetição contida na seqüência. E a palavra Power simboliza os poderes do sistema: o do colecionador, do artista e do curador. Para completar, ele registrou cada um dos trabalhos em cartório. Cada obra se torna documento, se transforma em auto-referente.