As primeiras cenas do romance de Cláudia e Leandro em Senhora do Destino pegaram Leandra Leal de surpresa. A atriz construiu, desde o início, uma personagem com dificuldades para lidar com os sentimentos e não sabia como demonstrar o envolvimento de Cláudia com o bom-moço vivido por Leonardo Vieira. “Minha primeira reação foi pensar: ‘Caramba! Não vou conseguir fazer a heroína romântica'”, confessa, reproduzindo a surpresa inicial.

Apesar da boa repercussão do trabalho, Leandra garante que nada tem sido fácil na trajetória da personagem, que começou a novela encontrando o corpo do pai no chão da sala, passou por uma fase de “detetive” e atualmente descobre sua identidade no trabalho e no amor. “São muitas transições. Ela é estranha, não é uma personagem entregue, que você olha e já sabe quem é. Ao mesmo tempo, isso é ótimo”, pondera, com jeito agitado.

Aos 22 anos, Leandra já acumula 14 de uma carreira que inclui tevê, cinema e teatro, além do trabalho como produtora no Teatro Rival, dirigido pela mãe, Ângela Leal, e das incursões como escritora nas horas vagas, apesar de garantir que a maior parte do que escreve vai “direto para o lixo”, Leandra reuniu alguns escritos no espetáculo “Impressões do Meu Quarto”. E já pensa em dar os primeiros passos como diretora. Tantas atividades revelam uma indisfarçável ansiedade, que a atriz espera perder com o passar dos anos. Mas que só aumenta quando ela faz novelas. “Não dou conta de fazer novela e ainda existir. Principalmente depois do capítulo 150”, dispara, com o ar mais natural do planeta.

É também com naturalidade que Leandra encara a vontade de encarar diversas “frentes” do panorama artístico para ela, conseqüência de ter começado cedo. “Você já conhece tanto as coisas que faz, que acaba se interessando por outras”, tenta explicar a atriz, que julga vir dela própria a maior cobrança por ter seguido a carreira da mãe. “Minha mãe caminhou até um certo ponto e é normal que eu vá dali em diante. Senão, é porque alguma coisa está errada”, conclui, deixando um pouco de lado a habitual timidez.

Talento precoce

Quem olha o currículo de Leandra Leal dificilmente imagina que a menina tenha ingressado no teatro apenas para driblar a timidez da qual, aliás, mantém visíveis resquícios até hoje. Foi aos sete anos de idade, por iniciativa do pai, o advogado Júlio Braz, falecido em 1995. Pouco tempo depois, e aí sim, já seguindo os passos da mãe, a atriz Ângela Leal, Leandra fez participações nas novelas Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão. Antes de conquistar o papel da ciganinha Ianca, de Explode Coração, através de uma fita com seus trabalhos gravados, Leandra ainda participou do seriado Confissões de Adolescente, da TV Cultura. “Tive a sorte de, ainda jovem, fazer trabalhos muito legais”, minimiza a atriz.

Foi com a estréia no cinema, no entanto, que Leandra realmente chamou a atenção do público e da crítica. Como protagonista de A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., a então adolescente conquistou oito prêmios no Brasil e no exterior, entre eles o de melhor atriz no Festival de Biarritz, na França. De lá para cá, Leandra vem intercalando trabalhos na tevê e no cinema, onde integrou, entre outros, o elenco dos longas-metragens O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, e Cazuza O Tempo Não Pára, de Sandra Werneck. Entre as personagens da tevê, a atriz hesita em apontar uma ou outra, mas não esconde a satisfação por ter trabalhado nas minisséries A Muralha e Um Só Coração. O seriado A Grande Família é outro xodó de Leandra. Ela espera ansiosamente poder voltar a interpretar a batalhadora Viviane. “Havia previsão de que ela voltasse no especial de Natal, mas não sei se vai dar, por causa da novela. Queria muito, mesmo que fosse um só episódio”, revela Leandra, animada.

Do quarto aos palcos

Já faz tempo que Leandra Leal tem o hábito de escrever. A maior parte dos resultados, no entanto, acaba ficando esquecido no fundo da gaveta. Com Impressões do Meu Quarto foi diferente. A peça, que estreou no Rio de Janeiro e deve seguir em turnê assim que terminar Senhora do Destino, reúne escritos de Leandra nos últimos três anos. “Decidi produzir para dar um fim a tantos rascunhos. As coisas só merecem vir à tona quando viram obsessões”, filosofa.

No caso de Leandra, as “obsessões” são comuns. Ela tem sempre uma série de projetos e não costuma descansar enquanto não os coloca em prática. Atualmente, a atriz vive às voltas com sua mudança para São Paulo e com a produção de uma série de eventos multimídia no Teatro Rival, envolvendo teatro, performances, dança e música. Tudo capitaneado pela empresa As Três Meninas, que ela montou com duas amigas e também responde pela produção de sua peça. “Às vezes penso em ficar um mês de férias depois da novela, só cuidando da peça, mas surge alguma coisa e mudo de idéia. Acho que é porque sou jovem, mas espero ficar mais tranqüila”, confessa, sem qualquer traço de preocupação.