Depois de "Casa de Areia", a saga familiar de Andrucha Waddington, o Festival de Berlim anunciou a seleção de mais dois títulos brasileiros. "Atos dos Homens" vai integrar o Fórum Internacional do Novo Cinema, dedicado a filmes de perfil mais experimental. Segundo o diretor, Kiko Goifman, é a primeira vez que um documentário foi selecionado para essa categoria. "Sexo & Claustro", também um documentário, vai integrar o Panorama, na competição de curtas. O filme da estreante Claudia Priscilla traz o depoimento de uma religiosa mexicana que abandonou o hábito e assumiu a homossexualidade. O fato de Kiko e Claudia serem marido e mulher só contribui para aumentar o interesse sobre seus trabalhos.

"Atos dos Homens" tem como tema a recente chacina de Queimados e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, na qual 29 pessoas morreram na madrugada de 1º de abril de 2005, quando cruzaram por acaso o caminho de um grupo de policiais fortemente armados e mal-intencionados. O filme passa longe da crônica policial, da reconstituição das mortes ou qualquer coisa que possa parecer minimamente sensacionalista. Em vez disso, faz a crônica da vida em um lugar "estranhamente próximo do Rio, mas sobre o qual pouco se sabe verdadeiramente", nas palavras do diretor. Além disso, mostra como a rotina de violência afeta o cotidiano das pessoas que moram lá.

Goifman percorre todos os andares da sociedade que vive na Baixada e entrevista seus principais representantes, do travesti que faz ponto na Via Dutra ao socialite que conhece os principais nomes do jet set na região, passando pelo matador de aluguel, personagem sobre o qual só se conhece a voz e o teor assustadoramente franco de suas falas. "Inicialmente, o que me interessava eram as pessoas, a dimensão micro de alguma coisa macro", explica o diretor, que trabalha em ritmo acelerado na finalização do filme. "Eu estava procurando uma versão íntima que contrastasse com a versão oficial. É uma abordagem mais etnográfica do que qualquer outra coisa."

Guardadas as proporções, "Atos dos Homens" tem parentesco com outro documentário recente, "O Fim e o Princípio" em que Eduardo Coutinho se lança na "aventura" de partir do nada para criar um filme a partir apenas de uma localização no mapa. Para entender essa relação, é necessário conhecer um pouco da gênese do trabalho de Goifman e como ele foi levado até a Baixada. Inspirado em "Atos de Deus", documentário em curta de Peter Greenaway sobre pessoas que sobreviveram a descargas de raios, o diretor teve a idéia de entrevistar pessoas que haviam sobrevivido a chacinas.

"Ia começar a filmar no dia 30 de abril, estava com o cronograma pronto e tinha uma pesquisa sobre as principais chacinas recentes, exceto as do Carandiru e da Candelária, sobre as quais há extenso material", conta ele. "Aí, aconteceram as mortes de Queimados e Nova Iguaçu. Passei uma semana pensando no que fazer: se ignorava, se acrescentava no projeto ou se abandonava tudo e mergulhava nessa chacina. Quando descobri não ter distanciamento crítico para abordar o assunto, resolvi recomeçar do zero e mandei uma carta aos patrocinadores intitulada ?A realidade é maior do que os nossos cronogramas?."

Goifman e mais três profissionais, incluindo a produtora de set carioca Graciete Grace, passaram cinco semanas entrevistando pessoas e colhendo imagens. "O ponto de contato com o filme do Coutinho é o acaso, essa coisa que começa com um personagem, uma entrevista e vai crescendo", avalia Goifman. "A maior antítese desse tipo de documentário são os filmes do Michael Moore, que vai atrás de uma realidade para ilustrar uma tese. Quando se concorda com a tese, ainda vá lá. Mas se ele resolve fazer um filme sobre a necessidade da pena de morte, aí fica complicado.