Nada menos do que 50 peças entraram em cartaz no primeiro dia de programação do Festival de Teatro de Curitiba, que começou ontem (16) e até o dia 26 vai trazer à capital do Paraná mais de 200 peças teatrais, entre as mostras oficial e paralela, o Fringe. A primeira é integrada por montagens selecionadas pela curadoria do evento, renovada nesta 15ª edição – os críticos Kil Abreu e Edélcio Mostaço, a jornalista Lúcia Camargo e a pesquisadora Tânia Brandão. Já a mostra paralela não tem curadoria e são aceitas todas as produções inscritas.

Há apresentações em teatros e ruas desde 10 horas da manhã até sessões da meia-noite. Como fazer escolhas? Bem, o público já fez as suas. Mesmo com tal avalanche de espetáculos, alguns da mostra oficial estão com lotação esgotada e fila de espera. Pelo visto, o público ficou curioso para conferir o novo trabalho de um dos destaques do Fringe do ano passado, a companhia mineira Espanca, que fez sucesso com "Por Elise" e agora volta para a oficial com "Amores Surdos", cujos ingressos se esgotaram no primeiro dia de venda. Surpreende ainda a procura por monólogos.

Três deles já estão com casa cheia: "Prego na Testa", com Hugo Possolo; "Fala Zé", como José de Abreu, e "A Descoberta das Américas", com o ator Júlio Adrião. Também não há mais ingressos para a montagem carioca de "O Amor Imortal de Antonio e Cleópatra", de Shakespeare. Esses espetáculos serão apresentados em espaços com cerca de 200 lugares. Ainda assim, a lotação é uma proeza em meio a tanta oferta.

"O Auto do Circo" reabriu o Ópera de Arame. Há mais de um ano fechado para reformas, esse bonito e complicado teatro durante 13 edições foi palco da abertura solene do festival. Desta vez não choveu. Microfones foram instalados para tentar resolver o problema de acústica do Ópera – uma bela construção arquitetônica, sobre um lago, com estrutura vazada, feita em vidro e metal. Em vão. Para quem estava mais próximo, o som chegava truncado. Os que sentaram mais distante ouviram ecos. Mais que isso, o teatro possui um fosso que distancia muito a platéia do palco, esfriando a cena. A julgar pela noite de reabertura, o Ópera de Arame, com sua indubitável beleza arquitetônica, não serve como espaço teatral.

Ao contrário do que sugere o título, o "Auto do Circo" não é feérico, o que seria adequado ao Ópera, desde que sem palavras. Embora os atores da Cia. Estável executem muito bem números de contorcionismo, trapézio ou malabares, a exibição técnica não é a essência da narrativa, como nas apresentações do Cirque du Soleil, por exemplo. Com texto de grande força poética assinado por Luis Alberto de Abreu, esse auto conta a história de uma família circense desde as primeiras viagens, quando as carroças atolavam nas estradas de terra, passando pelo auge de sua arte, em meados do século 19, até sua decadência, nos dias atuais – sempre mesclando humor e lirismo. Na primeira noite, como era de se esperar, o público compareceu, mas não chegou a lotar os quase mil lugares do Ópera. E teve dificuldade para ouvir com clareza boa parte do texto. Ainda assim, a trupe conseguiu silêncios emocionados, risos e aplausos calorosos.

Os atores improvisaram e tiraram humor das dificuldades enfrentadas como a distância que os separava do público e as dimensões do teatro. Mas ainda assim a apresentação ficou aquém de seu potencial. Os paulistanos devem ter mais sorte na estréia do espetáculo, no dia 4 de abril, no Centro Cultural São Paulo.

Entre as 47 peças que estrearam no Fringe no primeiro dia, o Estado pôde conferir três – e deu sorte. Um excelente trabalho de mimese da atriz gaúcha Evelyn Ligocki, premiada em Porto Alegre, faz a qualidade do espetáculo "Borboletas de Sol de Asas Magoadas". A partir de uma ampla pesquisa de campo, com travestis gaúchos, Evelyn literalmente "encarna" uma, misto de muitas. Assim, supostamente montada, ela fala diretamente com o espectador, acomodado ?dentro? de sua casa. O que tinha tudo para dar errado, acaba por humanizar e dignificar esse personagem fortemente discriminado – até no circuito já ?marginal?. A dramaturgia pede alguns acertos, o desfecho está mal resolvido, mas Evelyn é atriz talentosa, de forte presença cênica, cujo trabalho tem méritos éticos e estéticos, e merece ser visto.

Em "O Quarto", os atores da Cia. Vermelha de São Paulo acertam na criação de uma atmosfera teatral, a começar pelo músico que nos recebe tocando seu violoncelo, e na forma como somos conduzidos pelos cômodos de um casarão. Num dos quartos, acompanha-se uma cena de uma ?separação conjugal?, criada a partir de textos de Tennessee Williams e Maiakovski. Seria um bom experimento se os atores tivessem mais domínio vocal e da própria emoção.

Do jeito que ainda está, pode ser aperfeiçoado, tudo fica exacerbado demais, diluindo sentidos. Vindos de Jundiaí, os atores da Cia. Paulista de Artes escolheram um excelente texto para levar ao palco, "Jogos na Hora da Sesta", no qual podemos ver as mazelas da sociedade refletidas nas brincadeiras das crianças em uma praça. Mas não é uma criação fácil de ser feita e os atores escorregam na ?infantilização?, além de se mostrarem ainda crus para explorar pausas e climas exigidos. Mas não parecem estar ?brincando? de teatro. Merecem aplauso a seriedade e o empenho evidentes na encenação.