Os últimos filmes mostrados não devem alterar as projeções para a premiação da 61.ª edição do Festival de Veneza, que será anunciada hoje à noite no teatro La Fenice. Segundo os analistas, os troféus devem ficar entre poucos candidatos: Vera Drake, de Mike Leigh, A Terra da Abundância, de Wim Wenders, As Chaves de Casa, de Gianni Amelio, e Binjip (Casa Vazia), de Kim Ki-duk. Este último caso é o mais curioso. Entrou como “filme-surpresa” e não estava nem mesmo no catálogo. Segundo o diretor Marco Müller, Casa Vazia ficou pronto na última hora, mas os selecionadores gostaram tanto dele que resolveram incluí-lo como o 22.º concorrente. É brilhante em sua simplicidade e seu rigor. Correndo por fora, pode ganhar, coroando assim a cinematografia coreana, atual moda no mundo do “cinema de autor”.

Enfim, a maior parte dos prêmios deve ficar mesmo entre aqueles indicados, a não ser que o júri, presidido pelo britânico John Boorman, resolva tirar algum coelho da cartola, o que não seria inédito. Em pesquisa feita pela revista Ciak, especializada em cinema e que edita um boletim diário durante o festival, o preferido da crítica italiana para melhor filme continua sendo Vera Drake, de Mike Leigh. E, de fato, essa história da dona-de-casa que mantém ocupação secreta parece o mais sólido dos concorrentes, do ponto de vista dramatúrgico.

Mas talvez a premência do seu tema – os Estados Unidos pós-11 de setembro – faça a balança pender para Terra da Abundância, do alemão Wim Wenders, que já ganhou um Leão de Ouro no longínquo ano de 1982 com seu O Estado das Coisas.

O longa de episódios Eros marcaria a volta de Michelangelo Antonioni à direção, assinando uma das três histórias do filme – as outras duas são de Wong Kar-Wai e Steven Soderbergh. Marcaria. O verbo vem no condicional porque não se reconhece a mão do mestre, autor de obras-primas como A Noite e O Eclipse, no tosco episódio apresentado ao público no Lido. Antonioni, como se sabe, está muito doente e mesmo seu longa-metragem anterior, Além das Nuvens, foi co-dirigido por Wim Wenders.

O filme é apresentado por uma canção de Caetano Veloso, chamada justamente Michelangelo Antonioni, usada também para ligar um episódio ao outro. “Caetano mandou o CD e depois telefonou para nossa casa perguntando se meu marido havia gostado”, conta a mulher do cineasta, Enrica Antonioni. O diretor português, Manoel de Oliveira, recebeu o primeiro Leão de Ouro desta edição pelo conjunto da obra.