Um cara comum. Demasiadamente comum. Jovem, desempregado, morador do subúrbio carioca. Com uma vida fadada à mediocridade – viver de bicos, casar-se sem paixão, ter filhos por inércia e envelhecer diante da televisão. Até que uma aposta futebolística provoca uma reviravolta – e de repente ele é um justiceiro profissional, idolatrado e temido no bairro, respeitado pela polícia, disputado por duas mulheres. Torna-se dono de uma empresa de segurança, entra para a alta roda, e agora já está com casa nova, carrão, piscina, boas roupas, jóias. Inebriado pela nova vida, tenta tomar as rédeas do seu destino, mas um novo acaso embaralha tudo outra vez. Esta é a história de O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, que estréia hoje nos cinemas.

É uma boa história. Adaptada por Rubem Fonseca (pai de José Henrique) do cultuado livro O Matador, de Patrícia Melo – lançado pela Companhia das Letras em 1995 -, é uma intrigante narrativa de como um detalhe aparentemente insignificante pode transformar a vida de uma pessoa, e fazer de um rapaz pacato um assassino frio e eficiente.

O elenco também é animador: Máiquel, o rapaz em questão, é vivido por Murilo Benício; Cledir, a cabeleireira que vira esposa é Cláudia Abreu. E tem ainda Natália Lage, Jorge Dória, José Wilker, Mariana Ximenes, André Gonçalves, Paulo César Pereio, Paulinho Moska e até Agildo Ribeiro, num inesperado papel sério. A direção de José Henrique é competente, a trilha sonora adequada e tecnicamente a produção não deixa nada a desejar a nenhum filme feito hoje no Brasil.

Mesmo assim, falta alguma coisa a O Homem do Ano. Ele parece “bater na trave”. Fica muito na superfície dos conflitos, que poderiam ser melhor explorados. E tem um final ao estilo do antigo seriado Incrível Hulk, uma grande reticências, sem desfecho. Sem falar na batida “estética da pobreza”, explorada em Cidade de Deus, Carandiru e outros. E Murilo Benício? Outrora um ator vibrante e ousado, cheio de recursos técnicos, ele aparece contido, apático e com o mesmo queixo proeminente e a expressão de playmobil dos seus três personagens em O Clone – talvez a maior derrapada da sua carreira.

Tempo

Há no entanto uma explicação plausível, tanto para a temática quanto para ajudar a compreender a atuação de Benício: o tempo que a produção levou para ficar pronta. O trabalho de captação começou em 1996, e as gravações só em 2001. O diretor encontrou muita dificuldade para viabilizar o filme, orçado em R$ 4,2 milhões – afinal, ainda não havia Cidade de Deus nem Carandiru, e o binômio pobreza/violência ainda não estava na moda. Tanto que O Homem do Ano só está sendo lançado inicialmente no centro-sul, com apenas 20 cópias.

Quanto a Murilo Benício, ele ainda nem tinha começado a gravar O Clone. Mesmo assim, José Henrique sai em sua defesa: “Ele é um grande ator, extremamente técnico, e que deu o tom exato do personagem. O Máiquel é apático mesmo, até meio burro, demora para compreender as coisas. Na novela o Murilo teve azar porque o gêmeo que sobreviveu era justamente o mais apagado, e demorou muito para aparecer o jovem clonado, que era mais ativo”. Quanto ao “queixo”, Murilo inspirou-se no Scarface do Al Pacino. Sem mais perguntas.

O filme que gerou uma filha

Quem observar com atenção, vai notar que Cláudia Abreu está mais, digamos, “opulenta” do que o normal em O Homem do Ano. Não, a eternamente jovem atriz não aderiu ao silicone. É que, na época das filmagens, Cláudia ainda estava amamentando Maria, sua filha – então com dois meses – com o diretor José Henrique Fonseca.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, O Homem do Ano não nasceu como uma empreitada familiar do clã Fonseca (José Henrique, o pai Rubem e a mulher Cláudia). Quando foi chamada, no final dos anos 90, a atriz não era mais que amiga do jovem diretor.

Durante o interminável calvário para a captação de recursos – agravado por um problema médico de José Henrique -, os dois começaram a namorar e Cláudia engravidou, o que adiou ainda mais o lançamento. “Eu aceitei fazer naquele momento por ter uma relação muito forte com o filme, afinal a Maria nasceu graças a ele. Se fosse qualquer outro filme eu não teria feito”, assegura.

A longa jornada de O Homem do Ano também gerou outros fatos curiosos, além do caso de Murilo Benício: um ilustre desconhecido durante as filmagens, Lázaro Ramos explodiria depois com Madame Satã e Carandiru, o mesmo acontecendo com Wagner Moura em Carandiru e Deus é Brasileiro.