Talvez se possa fazer uma ponte entre Boa Sorte, de Carolina Jabor, e Hermosa Juventud, de Jaime Rosales, e também entre A Maçã, de Samira Makhmalbaf, e Gabbeh, do pai dela, Mohsen Makhmalbaf. O espectador que tenta ver muitos filmes da Mostra nem sempre tem tempo de racionalizar as diferentes histórias e propostas estéticas. Consome ou deixa-se possuir pelas imagens, pelos sons. O que pode haver de comum entre Cássia, de Paulo Henrique Fontenelle, O Carvalho, de Lucian Pintilé, e Entre Mundos, de Feo Aladag?

Jaime Rosales propõe a mesma ambiguidade presente no título de clássicos como A Doce Vida, de Federico Fellini, e Juventude Transviada/Rebel without a Cause, literalmente Rebeldia sem Causa, de Nicholas Ray. Os jovens de Rosales são belos de ver, mas ao olhar para eles você percebe um mal-estar contemporâneo. Essa juventude não sabe o que fazer da vida. É produto da crise e o fato de a garota estar grávida e de ele ser desempregado, sem perspectiva de emprego, não ajuda muito.

Pelo tema – a juventude perdida -, o filme tem algo a ver com Gus Van Sant ou Larry Clark, mesmo se a reputação de Rosales, forjada em Cannes (onde quatro de seus cinco filmes passaram em diferentes seções), seja a de um Michael Haneke espanhol. Ou seja, outro misantropo. Carolina Jabor filma jovens, também belos, num instituto psiquiátrico. João Pedro Zappa é internado pelos pais e descobre o sexo (o amor?) com Deborah Secco, maravilhosa como drogadita. Mais uma juventude sem amanhã, que a diretora filma/revela buscando alternativas. Seu filme mistura técnicas e referências. Não se chama Boa Sorte por acaso.

Samira Makhmalbaf tinha 16 anos quando fez A Maçã, contando a história de gêmeas de 11 (anos), mantidas em cativeiro pelos pais. O pai de Samira estimulou a filha a pensar (e dirigir). Ela resolveu contar a história das que não tiveram essa chance. Fez um belo filme e um documento importante sobre a mulher na sociedade iraniana. O próprio Mohsen filma idosos que limpam o tapete tradicional e uma garota – chamada Gabbeh – vem ajudá-los. Ela conta sua história de amor, relaciona-a com a de seu clã e o diretor faz do tapete a metáfora da diversidade do Irã, que os aiatolás querem tornar uniforme. É um pouco o que ocorre em O Carvalho, de Lucien Pintilié, retrato da Romênia sob a ditadura de Ceausescu. Contra toda repressão, uma Cássia (Eller) lança sua voz e faz da sua vida um livro aberto contra a intolerância. Em Entre Mundos, um soldado alemão liga-se a garoto afegão na mira do Talibã. O mundo exige comprometimento, é um lugar complicado para se viver (e entender). A Mostra, com suas escolhas, que o diga.