Humanz, o mais recente disco do Gorillaz, de 2017, brinca com a transformação da humanidade. Para Damon Albarn, a mente musical do grupo, e Jamie Hewlett, o responsável pelo visual dos personagens virtuais, somos tão cartunescos quanto o quarteto. Se em 2001, quando saiu o primeiro disco da banda, era assim, em 2018, o mundo só ficou menos real.

A chuva despencada no meio da tarde de sexta, 30, teve impacto direto na estrutura do Jockey Club. Os portões tiveram sua abertura atrasada em algumas horas e, na pista normal, a água lamacenta subia pelos tapumes que deveriam proteger os pés do público no gramado. Já era uma garoa quando o show teve início, pontualmente às 21h, e deu uma trégua só lá pela metade da apresentação.

Não é por acaso que, a cada aparição dos personagens criados para criticar a cultura da imagem nos telões, nesse retorno aos shows pops, eram ovacionados. Mesmo virtuais, 2D (voz), Murdoc Niccals (baixo), Noodles (baixo) e Russel Hobbs (bateria) são considerados popstars pelo público.

O Gorillaz sempre foi um projeto de fuga, de dar vazão aos experimentos de Albarn com o hip-hop e dub. Ele busca, nas canções, compreender o mundo. Com o Gorillaz, a crítica social de Albarn com o Blur ganha um leque maior e mais poderoso.

Com Humanz, ele reflete sobre um futuro que é ainda pior do que ele esperava. O disco, lembrado em cinco oportunidades, canta hoje a realidade – com destaque para Stylo, canção na qual participam, no palco, Peven Everett e Bootie Brown. Albarn alterna seu protagonismo com as outras vozes e com os personagens cuja narrativa é exibida no telão central, atrás dos músicos. O show é rap, é dark pop, tudo unido num ritual que entoa o fim de um mundo como conhecemos.

Canções clássicas da carreira do grupo de 17 anos e cinco discos promovem pequenas catarses. 19-2000 e M1 A1, disparadas no início da apresentação, tratam do início da carreira do Gorillaz. É claro, faixas de Demon Days (2005) e Plastic Beach (2010) como El Mañana e On The Melancholy Hill, são celebradas. A mensagem política é clara e inevitável. “Há tanta porcaria ocorrendo no Hemisfério Norte. Amo estar aqui no sul”, diz Albarn, antes de Feel Good Inc. e da entrada do De La Soul no palco.

Pop e político, dançante e reflexivo, explosivo e cadenciado, o show do Gorillaz, pela primeira vez no Brasil, explora as dicotomias a seu favor. Afinal, a realidade é assim. Ou seria o virtual? Ambos, quem sabe?

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.