Herdeira direta do pensamento de Bertolt Brecht, a Berliner Ensemble foi criada pelo dramaturgo, em 1949. Foi à frente dessa companhia que o artista alemão conquistou projeção internacional – em 1955, Paris recebeu boquiaberta sua montagem de Mãe Coragem e Seus Filhos e espalhou sua fama mundo afora. Mesmo depois de sua morte, pode-se dizer que essa ligação tão próxima entre criador e obra continuou. Sua mulher, Helene Weigel, dirigiu o grupo até 1971.

Fiel a essa origem, a Berliner nunca se apartou da herança brechtiana. Mas também soube beber em outras escolas estéticas. Após a queda do Muro de Berlim, em 1992, o governo local convocou cinco diretores a compartilhar o comando da companhia. Entre eles, Heiner Muller, discípulo que soube subverter sua herança de Brecht. Mais recentemente, o grupo também pôde ser visto sob a condução de encenadores de perfil completamente distinto, caso do imagético norte-americano Bob Wilson.

Em Hamlet, vemos a junção das duas pontas dessa história.

Dos princípios do teatro épico, que remontam ao seu ideário original, podemos observar a intenção de revelar os procedimentos de cena, de reforçar a quebra das ilusões, de trazer atores que entram e saem de seus papéis à vista do público.

Outro dado marcante de sua trajetória que a Berliner convoca para a atual montagem é sua ligação com a música. Em Brecht, as canções nunca entraram como elemento acessório, mas como artifício fundamental, comentando as ações. Nessa versão de Shakespeare, duas cantoras e instrumentistas pontuam a trama.

A toda essa carga de tradição, unem-se procedimentos da encenação contemporânea. Luzes e cenário trabalham para desestabilizar os momentos de encenação realista, ampliando os sentidos do que é levado ao palco. É imenso o impacto visual. A postura essencialmente performática dos intérpretes, em especial do protagonista, é outro sinal das “novidades” que o grupo abraçou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.