Guerra do Paraguay é uma ótima entrada para a obra de Luiz Rosemberg Filho. Autor de filmes como O Jardim das Espumas (1970), A$$untina das Amérikas (1975) e Crônica de um Industrial (1978), Rosemberg sempre se colocou numa posição de outsider. Ou o colocaram, talvez seja melhor dizer. No entanto, este cineasta sempre produziu um cinema de primeira, inquietante, crítico, de ruptura. Por isso mesmo esteve à margem. A Guerra do Paraguay é seu novo trabalho, uma peça brilhante no contexto de sua obra e trabalho de grande atualidade.

O longa, filmado em deslumbrante preto e branco, puxa de início para um tom brechtiano. A longa sequência inicial mostra mulheres puxando uma carroça por uma estrada deserta. A referência é, talvez, a Mãe Coragem, de Brecht e, de fato, estamos numa situação de guerra. No caso, trata-se da Guerra do Paraguai, do genocídio imposto ao povo paraguaio e que passa por nossa maior façanha bélica. O tempo da sequência, os matizes e outras referências evocam, claro, a Cavalo de Turim, talvez a obra-prima do húngaro Bela Tarr e filme fecho de sua filmografia.

Guerra do Paraguay mantém, em boa parte da sua duração, estrutura teatral, o que não é problema em si. Basta ao espectador habituar-se a essa forma não naturalista de expressão, e que não chega a ser tão rara assim no cinema. Há um longo diálogo entre um soldado que volta do campo de batalha e uma atriz de teatro mambembe, uma das que puxavam a carroça nas imagens de início, conversa que talvez seja o centro de gravidade da obra. O encontro improvável entre esses dois seres se dá numa espécie de fresta do tempo. O homem vem do século 19, a mulher é contemporânea.

O que se discute? Nesse diálogo, trava-se uma forte oposição entre a barbárie e o humanismo. O soldado justifica a violência da guerra. A mulher defende a paz, a tolerância, a compreensão mútua. Não existe ingenuidade no que dizem. Os argumentos são sustentados com sabedoria. A Realpolitik de um lado; os argumentos humanistas, de outros. Ambos se amparam e talvez se equivalham do ponto de vista lógico. Será preciso o metro da ética para separá-los e estabelecer hierarquias. Mas, se for o caso, estas se farão na cabeça do espectador e não no discurso do cineasta.

O desfecho é de impacto e joga o espectador num abismo. De forma hábil, Rosemberg usa mescla imagens filmadas a material documental. Como a dizer: é ficção tudo isso que estamos falando ou se trata mais bem de realidade? O filme possui força e causa impacto. As longas cenas teatrais mostram-se exigentes com o espectador. Mas este é recompensado do eventual esforço que tenha para seguir o embate intelectual entre as duas partes por uma espécie de iluminação estética.

No fundo, Guerra do Paraguay expressa o diálogo sempre problemático e áspero entre a política e a arte. Aquela com suas “razões de estado”, que justificam qualquer violência; esta, com o sentido de utopia e humanismo que a caracteriza. Desnecessário dizer o quanto o filme se tornou atual, e como uma espécie de “Guerra do Paraguai”, de extermínio, parece acontecer neste exato momento da vida nacional.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.