“Brasil, o país das cantoras”. Já ouvimos esta frase várias vezes. Quando surgiram Adriana Calcanhotto, Luciana Souza, Céu, Mariana Aydar, Roberta Sá… Quando Bebel Gilberto começou a fazer sucesso nos Estados Unidos também ouvimos esta frase. E não está errado. Pelo contrário.

Somos o país que produziu Araci Côrtes, Carmem Miranda, Dolores Duran, Nora Ney, Emilinha Borba, Marlene, Sylvia Telles, Dóris Monteiro, Nana Caymmi, Wanderléa, Gal Costa, Joanna, Fátima Guedes, Simone, Jane Duboc, Joyce, Cláudia Telles, Marina, Paula Toller, Zizi Possi, Angela Rô Rô, Elza Soares, Fernanda Abreu, Ana Carolina, Zélia Duncan, Maria Rita… E tantas outras.

E, principalmente, Maria Bethânia e Elis Regina, as grandes divas da música brasileira. Bethânia sempre inconfundível, levando seu dom para o mundo sem tirar o coração de Santo Amaro da Purificação.

Fugindo dos conceitos, correndo independente de manias, modos ou modismos, ela é hoje a voz mais importante do País, uma referência de estilo, classe e qualidade acima de qualquer suspeita.

E Elis, a maior de todas, que fez surgir o que hoje chamamos de Música Popular Brasileira, um fenômeno incomparável quando apareceu, uma lacuna irreparável quando partiu, cedo demais.

Elis antecipou todos os movimentos de nossa música, esteve sempre à frente de seu tempo, foi a cantora que carregou o Brasil em nossos tempos mais bicudos. Quando listamos estes nomes, e ainda faltam tantos, deixamos clara a importância das cantoras em nossa música.

E não podemos “fugir” delas. Sem elas, não teríamos o samba-canção, a Bossa Nova, o Tropicalismo e o Rock Brasil. Resumidamente, não conseguimos viver sem as mulheres. Ainda bem.

Mas e os homens, onde entram nesta história? Aqui mesmo em O Estado citamos um dos grandes crooners da música brasileira, que foi Dick Farney. Também tivemos Orlando Silva, o maior de todos.

E Francisco Alves, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, Vicente Celestino. E mais tarde Lúcio Alves. E, claro, João Gilberto – que está aí, mas ao mesmo tempo não está. Entre eles, Altemar Dutra, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves.

Daí em diante, sobreviveram os cantores e compositores, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo (principalmente no início da carreira), Erasmo Carlos, Fagner, Belchior, Ivan Lins e por aí vai.

Praticamente desapareceram os intérpretes – aqueles caras que eram escolhidos a dedo para defender determinadas canções, levando toda a emoção que um cantor pode dar. Restaram poucos, mas legítimos representantes da linhagem citada acima.

O primeiro deles é mais “famoso” e mais “reconhecido” pela crítica. É Ney de Souza Pereira. Quem não conhece pode chamar de Ney Matogrosso que fica mais fácil. Ele foi o protagonista da maior revolução de costumes que o Brasil viveu.

No início da década de 1970, era o vocalista do grupo Secos e Molhados, uma experiência de um ano inexplicável para quem não viveu aqueles tempos. Um fenômeno de comunicação que só poderia acontecer por aqui, unindo música, estilo e mídia. Ney saiu do grupo como “superstar” e iniciou uma sólida carreira como intérprete.

Começou como um símbolo sexual andrógino e estilizado. Usou sua capacidade de sedução (a ambos os sexos) para angariar público e fazer sucesso. Teve também a ajuda dos grandes compositores, como Caetano Veloso, Rita Lee, Milton Nascimento e Chico Buarque, que lhe entregaram grandes músicas, como Tigresa, Bandido Corazón e Não Existe Pecado ao Sul do Equador.

Seu maior sucesso, entretanto, foi Homem com H, de Antônio Barros e Cecéu, que o transformou em grande vendedor de discos e em uma figura nacional – seu jeito, meio masculino, meio feminino, virou moda e até um tema em homenagem, Calúnias (não lembra? E se cantarolarmos “Telma eu não sou gay / o que falam de mim são calúnias…”).

Com a carreira consolidada, Ney deu o passo seguinte para se eternizar. Começou a revisitar grandes compositores e a lançar outros. Foi um dos primeiros a “descobrir’ Cazuza, Paulinho Moska e Pedro Luís (com quem chegou a gravar um álbum, Vagabundo).

Também foi ousado ao extremo ao minimizar seu próprio estilo em álbuns distintos, como os que homenageavam Cartola e Chico Buarque e o em parceria com o virtuose Raphael Rabello.

Sem fazer de sua vida um espalhafato ou um meio de aparecer e divulgar involuntariamente seu trabalho, Ney Matogrosso consolida-se, com o álbum Beijo Bandido, lançado recentemente, como o grande intérprete de sua geração, e um dos maiores nomes da música brasileira em todos os tempos.

Ele poderia ter um grande companheiro, não fosse um velado preconceito e certa má vontade da crítica. Emílio Santiago, um dos últimos artistas a realmente serem lançados pela televisão (surgiu nos programas de calouros de Flávio Cavalcanti), ele sempre transitou à margem dos grandes sucessos, das grandes gravadoras e também da mídia.

Quando foi amparado por uma major, no caso a Som Livre, foi campeão de vendagem com a série Aquarela Brasileira – que foi explorada à exaustão e, por isso, virou sinônimo de música brega.

Como crooner que sempre foi, revirou o baú da música brasileira e homenageou Dick Farney e Cauby Peixoto. Promoveu a redescoberta da obra de Gonzaguinha e, em 2000, fez ótimo trabalho em uma remissão dos sucessos da Bossa Nova.

Seu último álbum traz a regravação da bela Lembra de Mim, de Ivan Lins, que ganha força e emoção na voz característica de Emílio -que, repito, poderia ser muito maior não fosse um velado preconceito e certa má vontade da crítica.

A prova da excelência de Emílio Santiago está no seu mais antigo e, ao mesmo tempo, recente parceiro. É o gênio João Donato, um dos primeiros produtores do cantor e que dividiu um de seus últimos trabalhos.

Ao lado de Nana Caymmi, Emílio é um dos grandes intérpretes da bela e complicada obra do compositor e multiinstrumentista acreano. Só os bons se atrevem a gravar Donato. Emílio Santiago e Ney Matogrosso são muito bons.