O soneto é certamente uma das formas fixas mais tradicionais existentes no território vasto da criação poética. Sua origem remonta à primeira metade do século XIII, embora o ano certo seja indefinido.

Seu “inventor” – se é lícito falar em invenção, no caso – foi Giacomo da Lentino. O soneto foi mais tarde aperfeiçoado por aquele que viria a ser o primeiro sonetista respeitável, Guido Cavalcanti, que o conspícuo Ezra Pound chega a considerar, a meu ver equivocadamente, o verdadeiro criador do soneto.

Seja como for, a forma sonetística fez a glória daquele que eu considero o quarteto maior, não só da sonetística, mas da poesia universal: Petrarca, Dante, Camões e Shakespeare. Esses quatro nomes emblemáticos seriam mais que suficientes – mas houve muitos, muitos mais, nos últimos séculos, “sonetando” em todas as línguas cultas – para justificar o advento desse vaso de eleição poético que é o soneto.

A sua introdução em nossa língua coube ao poeta e humanista luso Francisco Sá de Miranda (1481-1558), embora seus sonetos deixem algo a desejar, em termos de qualidade estética.

Na poesia universal, notabilizaram-se como sonetistas eméritos, além do quarteto retromencionado, outros nomes ilustres: Garcilaso e Lope de Vega, Góngora e Quevedo, Wordsworth e John Keats, Milton e Shelley, Elizabeth Browning e Dante Gabriel Rossetti, Ronsard e Villon, Du Belay e Heredia, Nerval e Verlaine, Musset e Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud, Jorge Guillén e Aleixandre, Neruda e Rafael Alberti, e “tutti quanti”.

Dentro do condomínio lingüístico luso-brasileiro (é bom não esquecer que o português é hoje a terceira língua do Ocidente, tendo acima de si apenas o inglês e o espanhol), poderão ser citados como grandes sonetistas “à vol d’oiseau”, Camões e Cláudio Manuel da Costa, Gonzaga e Cruz e Sousa, Manuel Maria Barbosa du Bocage e Augusto dos Anjos, Antero de Quental e Raimundo Correia, Gomes Leal e Olavo Bilac, Antônio Nobre e Alphonsus de Guimaraens, Eugênio de Castro e Raul de Leoni, Florbela Espanca e Emílio de Menezes, Camilo Pessanha e Jorge de Lima, José Régio e Guilherme de Almeida, Jorge de Sena e Ribeiro Couto, David Mourão-Ferreira e Vinícius de Moraes. Sem esquecer, além do grande Emílio, outros paranaenses: Leôncio Correia e Emiliano Perneta, Dario Velozo e Clemente Ritz, Pedro Saturnino e Graciete Salmon, Leonardo Henke e Colombo de Sousa.

Deixo citar autores vivos, alguns muito importantes, para evitar o risco de esquecer algum nome inesquecível.

O grande Boileau, na sua Art poétique, chegou a afirmar que um soneto sem defeitos vale um longo poema ou mesmo um livro de poesia. Talvez exagerasse, é claro. Não obstante, o “túmulo de prata florentino” ou “sepultura de quatorze versos” (Júlio Dantas), ao lado dos aplausos tem levado inúmeras vaias… Por exemplo, durante a Semana da Arte Moderna de 1922, em São Paulo, chegou a fazer-se ouvir, altissonante, o grito de escárnio de muitos modernistas: “Abaixo a gaiola!”. A “gaiola” era naturalmente o pobre e indefeso soneto…

Pela ótica modernista, o soneto era sobretudo uma camisa-de-força inibidora do livre trânsito de “les mots en liberté”. Seu ideal era o “soi disant” verso livre. Mas esqueciam os modernistas paulistas a grave advertência desse modernista maior que foi o Nobel T.S. Eliot: “Um verso nunca é verdadeiramente livre quando se pretende fazer um bom trabalho”.

Por outro lado, os dois mestres por excelência do Modernismo em Língua Portuguesa, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade, cultivaram com brilho, com freqüência, a forma sonetística. Isso diz muito.

Na verdade, o preconceito, a má-vontade contra o soneto não se justificam. São puerilmente contraproducentes. Afinal, a “gaiola” tanto pode estar vazia ou ser o domicílio de um pássaro afônico, como pode agasalhar um canário ou um rouxinol de canto mavioso.

Pode-se conceber o soneto como vaso, invólucro, receptáculo. E o que vale é o conteúdo, não o continente. “Mutatis mutandis”, um cálice de cristal da Boêmia, admirável na sua estrutura cristalina, tanto pode conter um licor finíssimo, vinho capitoso de Médoc ou Tokay, champanhe embriagante, como uma zurrapa reles, intragável.

Em última análise, eu penso que o desapreço crônico – ou anacrônico – que alguns consagram ao soneto se radica num dos seguintes três motivos: o desapreço estético por essa forma fixa, o que é perfeitamente compreensível, e de acordo com o “de gustibus et coloribus, etc.”; a dificuldade, maior ou menor, em sustentar-se aos cânones rígidos da rima e da métrica, e, “last but not least”, a pura e simples impossibilidade técnica (ou tecnológica?) em construir um soneto digno do nome. Nesta derradeira hipótese, teremos que afirmar, como Nietzsche, que isso é “humano, demasiado humano”.

Concluo afirmando que, pessoalmente, sempre gostei do soneto. Comecei fazendo sonetos, sob a influência de Augusto dos Anjos, Raimundo Correia e Antero de Quental. Assim é que o meu primeiro livro Eu, sem mim (1962), é constituído por 35 sonetos. Não obstante, a minha produção sonetística representa apenas dez por cento da minha obra poética. Esta, ao lado de outras formas fixas, cultiva sobretudo o verso livre, de inspiração essencialmente modernista. Mas respeito o soneto. Respeito e cultivo, de forma não meramente bissexta.