Uma viagem no tempo. É como o maestro João Maurício Galindo, da Orquestra Jazz Sinfônica, resume a emoção que voltará a experimentar no próximo domingo, na área externa do Auditório Ibirapuera, quando os primeiros feixes de luz de um projetor revelar “Metrópolis”, do cineasta austríaco Fritz Lang, lançado em 1927. Simultaneamente, enquanto o público desvenda as imagens, os olhos de cada um dos músicos da orquestra estarão atentos à partitura da trilha sonora original do filme, de Gottfried Huppertz, retomando a magia do cinema mudo acompanhado ao vivo por uma orquestra sinfônica, que, segundo o maestro, durou apenas de 1905 a 1930, quando a trilha sonora foi incorporada à película.

O que o público verá na apresentação, que faz parte da 34º Mostra de Cinema de São Paulo, será o filme sem cortes, que se acreditava perdido há décadas e foi exibido no último Festival de Berlim. “Será a coisa mais difícil que vou reger na vida”, afirma, em entrevista por telefone, enquanto revia a partitura em sua casa, em São Paulo. E será a segunda vez que a Jazz Sinfônica passará por essa experiência. Há cinco anos, acompanhou ao vivo a exibição de “O Encouraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein, com a partitura original do filme. “E foi uma coisa muito emocionante, não esperávamos”, lembra. “É uma viagem no tempo que ninguém mais lembra.”

E a viagem não se caracteriza apenas por retomar uma prática dos primórdios da indústria cultural. Em sua ficção científica, Lang debate a opressão do homem pela tecnologia no século 21, abrindo um portal de mão dupla, uma vez que não seria essa mesma tecnologia uma das responsáveis por bloquear a fruição estética da arte? “Parte tem relação com a indústria cultural. A curva que havia alcançado a música no século 18 começou a declinar no século 20, quando a música começa a ser feita em massa”, avalia Galindo. “Eu não sou contra música de ‘balada’. Mas o espaço para a manifestação da fruição artística fica cada vez menor.”