Foi com um detalhe no lado esquerdo do tondo Virgem com o Menino, São João Batista Criança e um Anjo (1500-1510) que o professor Renato Brolezzi, da Facamp, chamou a atenção do estudante Inácio Bittencourt Rebetz Schiller e cativou o aluno durante uma aula sobre Piero di Cosimo promovida pelo Serviço Educativo do Masp. Bem atrás da figura do profeta João Batista, um corvo espreita uma taturana numa construção alegórica que mostra duas forças antagônicas, a da ave simbolizando a morte e a da lagarta representando o estágio larval de um novo ser – destinado a renascer, como Jesus. Bastou essa aula para que o aluno, estudante de Relações Internacionais, decidisse não só patrocinar parte do restauro da obra como mudar sua orientação profissional: formado, ele vai agora se dedicar ao estudo de História da Arte e seguir o caminho de Brolezzi.

Ao sair da aula, Inácio pensou como ajudar o Masp a restaurar a obra e passou a administrar um fundo de investidores criado para cumprir sua meta. É o tipo de determinação que talvez falte ao próprio museu, capaz de criar prêmios em dinheiro para artistas mas não de reservar verbas para a limpeza de sua fachada ou apagar pichações nas paredes de seu belvedere. Como muitos frequentadores do museu, Inácio quer o melhor para o Masp – e pretende com seu gesto incentivar outros jovens a assumir um compromisso pela preservação desse patrimônio. “Fala-se muito em educação técnica e quase nunca em educação humanista, que forme valores”, observa, traçando uma analogia com a renovação sugerida pelo tondo de Di Cosimo, que retrata o ciclo da vida recorrendo à figura de uma figueira seca que começa a brotar ao lado da Virgem.

Descendente de um ex-ministro da Cultura e da Fazenda, o baiano Clemente Mariani Bittencourt (1900-1981), Inácio começou a frequentar cedo o Masp, incentivado por artistas como o escultor Claudio Cretti, seu professor na Escola da Vila. Conhece como poucos o acervo do museu e sente falta do convívio com suas obras-primas, como O Torso de Gesso, de Matisse, e o retrato de Madame Cézanne em Vermelho (1890-94), que passa agora pela avaliação do serviço de restauro após contínuas viagens pelo Exterior. Aliás, este é um procedimento bastante comum que tem ajudado o museu a restaurar algumas obras lá fora – o empréstimo muitas vezes é condicionado a um compromisso de restauro. No entanto, ele tira dos visitantes a possibilidade de ver a coleção como foi originalmente organizada.

Há anos o núcleo básico das obras-primas compradas por Assis Chateaubriand não é exibido em conjunto, permitindo aos frequentadores habituais ou aos estrangeiros atestar a importância desse acervo in totum. Com suas dependências ocupadas por mostras temporárias – poucas de grande importância -, o Masp deixa de ser um museu físico para ter existência apenas virtual na internet, onde suas obras ainda podem ser vistas. Por vezes, uma mostra como a de Caravaggio, que trouxe ao Brasil, pela primeira vez, pinturas raras do pintor italiano, em agosto do ano passado, faz lembrar os velhos tempos do museu, que perde espaço para instituições como o CCBB, responsável por duas das maiores exposições já vistas em São Paulo, a dos impressionistas franceses e a do Renascimento italiano. Foi exatamente a exposição de Caravaggio que legou ao Masp um compromisso da restauradora italiana Paola Sanuzzi.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.