Santiago – Lenny Kravitz fez na quarta-feira o primeiro show de sua turnê pela América do Sul. Cerca de 40 mil pessoas lotaram o Estádio Nacional da capital chilena. Kravitz diz que quer ser um cara comum, que é apenas um artista que leva uma vida tranqüila em sua mansão em Miami. Ele pode até tentar, mas não consegue fugir do papel de rock star e do imenso assédio dos fãs, principalmente do feminino, que estava em polvorosa à sua espera. Como encara tudo isso? ?É a vida. Assédio existe em todo lugar, mas tento mostrar que sou apenas um artista?, responde displicentemente. É melhor Kravitz se preparar, pois a turnê continua na Argentina nesta semana e segue para o Brasil na próxima. Os shows em solo brasileiro prometem ser os maiores já realizados por um artista no País, totalizando um público de mais de 500 mil fãs. O primeiro show será em Porto Alegre (terça-feira), em seguida São Paulo (quinta), Brasília (dia 19) e Rio (21).

No show gratuito que fará na capital carioca, na Praia de Copacabana, como parte dos festejos dos 440 anos da cidade, são esperadas cerca de 400 mil pessoas. ?Nunca toquei numa praia. Estou imensamente ansioso e animado?, disse o cantor, que abriu mão do acréscimo de cachê geralmente cobrado por shows desse tipo. Ah, o cachê. O produtor Rafael Reisman, responsável pela turnê do cantor no País, não divulga o valor exato, mas Lenny custa caro.

Domínio da platéia – ?Lenny é o artista pop mais importante do mundo, atualmente?, dizia um fã chileno. Pode não ser uma verdade absoluta, mas justiça seja feita: Kravitz preenche uma lacuna importante do cenário pop rock. Não por acaso ele figura entre os três artistas que mais vendem ingressos no mundo atualmente, atrás somente de U2 e Green Day. O cantor mostrou que tem completo domínio da platéia, sabe como poucos assimilar todas as influências (de Miles Davis a Prince, passando por Kiss e Led Zeppelim) que teve em sua infância em Nova York e adolescência na Califórnia; dança como ninguém (tanto swing lhe causou tamanho mau jeito na coluna, no show que fez no México há uma semana, que foi preciso chamar quiropatas chilenos para tentar resolver o problema). E, sim, as mulheres, elas são loucas por ele. Kravitz é a definição perfeita do conceito sexo, moda e rock and roll. Moda sim. No melhor estilo metrossexual, o cantor declarou à ?Rolling Stone? argentina que está desenhando sua linha de roupas e lançará uma coleção em Paris e Nova York em 2006.

Mesmo a comportada platéia chilena veio abaixo quando Kravitz entrou no palco pontualmente às 21h15, vestindo uma capa à la James Brown e requebrando no melhor estilo Prince anos 80. Vestindo uma justíssima calça risca de giz, cinto largo à la Elvis, punhos de strass, camisa preta e echarpe vermelha, Kravitz não tem medo de misturar tendências. Nem na moda, muito menos em sua música. O show começou com o hit Minister of Rock n Roll, do álbum recente Baptism, e terminou com Are You Gonna My Way, um de seus maiores sucessos, do disco homônimo de 1993. Houve espaço até para mostrar suas raízes gospell em Let Love Rule, canção do seu primeiro disco de mesmo nome, de 1989. Kravitz até ensaiou um I Love it Loud, clássico do Kiss, uma das bandas preferidas do cantor. Em pouco mais de duas horas, mostrou por que é um dos maiores hit makers da atualidade. Seguindo o manual do rock clássico, com muito soul, funk e muita guitarra, incluindo solos de guitarra acústica, Kravitz e sua trupe fizeram uma noite impecável.

Se a empatia com o público chileno foi perfeita, o mesmo deve se esperar dos shows no Brasil. Kravitz conta ter profunda simpatia pelo País, já namorou a baiana Adriana Lima e é fã de música brasileira. ?Não conheço muito a música atual, mas cresci ouvindo o que meus pais (a atriz Rixie Roker e o produtor da NBC Sy Kravitz) ouviam. Adoro Tom Jobim, Milton Nascimento e Gilberto Gil.? Quando informado de que Gil se tornou ministro da Cultura, Kravitz se impressiona. ?Adoraria conhecê-lo.?

Quando não está no palco, Kravitz tenta ser um cara normal. Para a divulgação desta turnê, em vez de receber os jornalistas em estúdios ou em suítes de hotel, preferiu abrir sua casa em Miami. Fala com simplicidade ao telefone com veículos de todo o mundo, não fez nenhuma exigência esdrúxula para seu camarim (não, ele não pediu 40 gaúchas para ?enfeitarem? seu quarto em Porto Alegre) e se define como um artista urbano. E só. Diz que está numa fase espiritualista, que cada vez mais quer se tornar obediente a Deus.

Inspiração

Baptism, lançado em 2004, é fruto de uma inspiração repentina que o cantor teve em 2003, quando visitou Nova York, sua terra natal, e sentiu que precisava recuperar a inspiração que tinha no começo da carreira. Kravitz voltou a Miami, engavetou um disco pronto prestes a ser lançado, que possui forte influência funk, e gravou Baptism. O álbum é repleto de espiritualismo, letras que falam de nascimento, transformação e, claro, questionam o real valor da equação fama + dinheiro = felicidade.

Se voltou às raízes em Baptism? ?Claro que sim. Tudo que faço é parte de minhas raízes, mas este álbum fala de espiritualidade, de coisas profundas, como fama, vida, amor?.

Na próxima semana, o público brasileiro poderá conferir e decidir se prefere o Lenny simples e artista urbano ao Kravitz sexy, hit maker e rei do pop rock atual. Por enquanto, os brasileiros parecem preferir a segunda opção. Tanto que há vários boatos de festas after-show a serem realizadas no País especialmente para o ?ídolo?. A organização do show nega que Kravitz esteja presente a festas divulgadas por casas noturnas e garante que o cantor prefere uma festa particular, na casa de amigos brasileiros. É esperar para ver.