O jornalista Eder Chiodetto assina um belo ensaio fotográfico em O Lugar do Escritor, em lançamento pela Cosac & Naify, com projeto gráfico de Pinky Wainer. Os personagens são contadores de histórias, que também deram entrevistas ao autor, fazendo uma obra de imagem e palavra.

Eder relata fragmentos dessas entrevistas, bate-papos e confidências, após os quais se seguiram sessões fotográficas que resultaram em originais retratos. Retratos literários. É assim que entramos no escritório de Ferreira Gullar, abarrotado de livros e idéias, percorremos de forma quase tátil um manuscrito de Ariano Suassuna, nos fascinamos com a delicadeza de Lygia Fagundes Telles e confrontamos o antigo com o moderno na biblioteca do poeta José Paulo Paes, só para citar alguns exemplos.

Segundo o professor Boris Kossoy no prefácio: “É um livro de retratos que escapa da fórmula tradicional; nesta coletânea não existem retratos comportados, a câmara penetra na intimidade e segue através de biografias, guiadas pelo faro do voyeur curioso; um documento-ensaio que retém, por meio de imagens e textos, ora se contrapondo, ora se complementando, fragmentos das vidas de uma série de escritores”.

Sobre alguma dificuldade para fazer seu trabalho, Eder recorda que “alguns não queriam fazer foto. João Cabral, por exemplo, foi extremamente difícil. Fiquei três meses tentando marcar um dia, ele sempre negando. Quando consegui, depois de muita insistência, ele abriu a porta da casa dizendo: `O que é que você veio fazer aqui? Não sou mais escritor, estou cego’. Fiz a entrevista e quando terminei voltei ao assunto das fotos: `Você é mesmo insistente, hein, garoto!’. Consegui fazer umas seis, sete fotos dele. Ele não queria deixar, me dizia: `Estou barbado, e o barbeiro só chega aqui por volta das sete da noite’. Adélia Prado também não queria, mas acabou aceitando. Na verdade, ela não tem um lugar específico para escrever. Anda com uma cadernetinha pela casa”.