Houve um clamor no México quando o diretor Sebastian del Amo escolheu um ator espanhol – Oscar Jaenada – para ser Cantinflas em sua cinebiografia sobre o lendário astro mexicano dos anos 1940 e 50. Nas redes sociais, o protesto foi instantâneo – parecia absurdo, quando não desrespeitoso, que não houvesse um ator mexicano adequado para interpretar uma das glórias nacionais. Na estreia de Cantinflas, havia clima para o que poderia ter sido um massacre. Virou unanimidade. Apesar do sucesso de público, Cantinflas decepcionou a maioria da crítica. Já o ator só recebeu elogios. Na voz, nos gestos, Jaenada logra converter-se em Cantinflas diante da câmera. É a alma e o melhor do filme que estreia nesta quinta-feira, 23.

Cantinflas foi indicado pelo México para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro e, como tal, compete com o brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Rezende. Nada mais diferente do que a história (dramática) de um grande comediante e a do garoto cego, e gay, que supera preconceitos e sai do armário. Até meados de dezembro, saberemos se os dois filmes ficaram entre os pré-finalistas e, depois, em janeiro, se estarão entre os cinco que vão concorrer ao prêmio. Por mais que os críticos contestem o Oscar, é o prêmio mais popular do cinema. E o Brasil nunca ganhou. Terá chance com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho?

Pode não ser necessariamente uma vantagem, mas o filme mexicano já começa em ritmo de Oscar. O recorte de Del Amo começa justamente nos bastidores de A Volta ao Mundo em 80 Dias. Em 1956, o longa dirigido pelo inglês Michael Anderson e produzido por Michael Todd – então marido da superstar Elizabeth Taylor – foi indicado para vários prêmios da Academia e ganhou na categoria principal. Embora considerado o melhor filme, não somou o prêmio de direção, atribuído ao George Stevens de Assim Caminha a Humanidade/Giant – com Elizabeth Taylor num de seus melhores papéis. A Volta ao Mundo baseia-se no livro de Jules Verne sobre a aposta feita pelo cavalheiro britânico Phileas Fogg de que conseguirá dar a volta ao mundo em 80 dias. Ele parte acompanhado por seu fiel valet, Passepartout. Envolvem-se em muitas aventuras e há uma pirueta final, o suspense decorrente de uma corrida contra o tempo até sabermos se Fogg venceu sua aposta, ou não.

Justamente 1956 foi um ano decisivo para Cantinflas. Um astro no México e em todo o cinema de língua espanhola, ele obteve sua consagração definitiva em Hollywood. Como Passepartout, senão o Oscar, ele ganhou o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante de comédia ou musical. Na tela, e fora dela, Cantinflas volta à Academia. Resta saber até que ponto isso poderá afetar os votantes.