Em visita ao Rio, em 1982, justamente quando veio lançar Crônica de Um Amor Louco, o diretor Marco Ferreri definiu Serking, o personagem de seu filme, interpretado por Ben Gazzara, como um herói do nosso tempo. E o que seria essa figura? “Um homem que procura se encontrar internamente por meio de atores destruidores.” E ele poderia acrescentar – autodestruidores. Logo na abertura do filme adaptado de Charles Bukowski, Gazzara, como um poeta, fala para uma plateia um tanto alternativa, sobre a importância do estilo. Cita Ernest Hemingway, que levou seu estilo – sua originalidade – até o suicídio.

Serking não comete nenhum ato assim radical, mas o tempo todo passa a impressão de um viajante sem bússola, movido a álcool e sexo. Relaciona-se com várias mulheres, mas a decisiva é a prostituta interpretada por Ornella Muti. Com ela, Serking desenvolve jogos masoquistas, e esses, sim, são radicais. Envolvem a mutilação física.

O espectador que for assistir ao filme – de volta em cópia nova – não terá a mesma percepção de quem o viu há 32 anos. Naquela época, após um longo e tenebroso inverno, o Brasil atualizava-se (ainda) com filmes que haviam sido proibidos pela censura do regime militar. Foi só em 1979, ou seja, seis anos após sua realização, que A Comilança, do próprio Ferreri, conseguiu chegar aos cinemas brasileiros. Entre um e outro, o diretor fez quatro filmes, dos quais apenas um, Ciao Mascchio, com Gérard Depardieu, estreou no País, mas aí a censura era do mercado, que não considerava Ferreri um autor atraente para o grande público. Com Crônica de Um Amor Louco, ocorreu algo inesperado – que nem o escatológico A Comilança lograra. Crônica virou cult no circuito que exibia a produção mais autoral. Ficou um ano em cartaz.

Marco Ferreri foi sempre um diretor fora dos cânones estabelecidos. Sua entrada para o cinema se deu de forma original. Como representante de uma firma que vendia lentes para câmeras e projetores, ele foi à Espanha em 1956. Tornou-se amigo de Rafael Azcona, humorista que se tornara roteirista (e desafiava a censura do franquismo). De volta à Itália, Ferreri estabeleceu-se como diretor de filmes provocativos. A amizade com Pier-Paolo Pasolini levou-o a ser ator em Pocilga, de 1969.

Ferreri gostava de dizer que não era otimista nem pessimista. Nem marxista nem niilista. “Sou realista”, proclamava. O amor louco do título é ‘ordinário’, no sentido de comum, na obra de Bukowski. É o melhor papel de Gazzara, que já filmara Maridos com John Cassavetes (e faria Forever com Walter Hugo Khouri no Brasil). Ornella Muti era uma das atrizes preferidas do diretor. Fez com ele L’Ultima Donna e O Futuro É Mulher. Ferreri morreu em 1997, de enfarte, durante o Festival de Cannes, aos 69 anos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.