Talvez seja natural que, após concluir a leitura do Romance Histórico, Memorial do Fim – A Morte de Machado de Assis, de Haroldo Maranhão, o leitor se veja compelido a buscar prudentemente no dicionário, o significado do termo memorial já que este, além de ser parte do título do romance de Maranhão, é parte do título do romance de Machado de Assis, Memorial de Aires. Que, por sua vez, remete a Memórias Póstumas de Braz Cubas. Por estas e por outras, o leitor vai se deparar com uma série de obstáculos. Muitos deles rigorosamente intransponíveis. Atento ao dicionário, o leitor vai perceber que Memorial está relacionado a “escrito que relata fatos memoráveis; o mesmo que memórias do que é digno permanecer na memória, célebre, notável”. Mas para onde levam estas expressões tão ambíguas?

Retornando ao romance, o leitor vai procurar uma resposta. E a encontra. No subterrâneo da memória está o passado. Denso e coberto por uma névoa escura. O passado surpreso pelo rápido flagrante da memória. Uma imagem captada e imobilizada.

Decerto, não era para tanto. Esta é apenas uma resenha acadêmica e aqui não cabem tagarelices embaçadoras. Mas o leitor, no entanto, não satisfeito com a resposta, vasculha com fúria e se depara com a máscara mortuária de Machado de Assis. Que horror! Grita assustado. Por que máscaras mortuárias são tão estáticas? Eis uma pergunta que não merece resposta.

Em Memorial do Fim, um par de olhos observa através da máscara mortuária, antes mesmo que ela exista concretamente. Olhos e ouvidos atentos a caminho do estreito corredor que separa a vida da morte. Olhos e ouvidos que perscrutam, diagnosticam e se emocionam. Por isso, talvez não seja uma tarefa muito simples construir frases e encher linhas para fazer uma resenha deste romance que lembra, já de primeira página, aquele que se convencionou chamar de o Mestre do Realismo.

Não há como evitar. O estilo é Machadiano, aquele da visão objetiva e pessimista do mundo das pessoas. Em que aparecem as contradições humanas em constantes análises psicológicas. Onde se inclui também a crítica humorada e irônica das situações humanas, das relações entre as pessoas e dos padrões de comportamento, numa linguagem sóbria.

E o autor utiliza inclusive, de outro recurso de Machado que é o envolvimento do leitor, seja pela oralidade, ou pelas surpresas de que suas histórias estão cheias e pelas conversas que o narrador estabelece com este leitor. Além disso, as personagens de Machado desfilam no romance. Saem de diversas obras para participarem da escritura do Memorial, como Dona Marcela ou Virgilia. O agonizante mestre se vê cercado carinhosamente pelas suas criaturas. São elas que amenizam sua dor e lhe proporcionam conforto.

O foco narrativo do romance se apresenta com o narrador onisciente intruso, bem ao gosto Machadiano quando quer comprometer e, impiedosamente, promover o leitor à cúmplice.

Conforme o próprio autor explica, nas últimas páginas, o romance foi construído com trechos de textos de Machado e outros escritores e críticos que a ele se referem. Mas estas partes fragmentadas acabam se misturando à narrativa que, aliás, não tem começo, nem meio, mas tem um fim.

Ao refletir sobre a máscara, o leitor vai criar uma perspectiva de introspecção. Com a máscara cobrindo os olhos é possível ver para dentro. Para daí reconhecer o exterior. Os olhos fechados lembram um momento do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, isto é, que mantidos assim fechados como se fossem cegos, vêem seus próprios olhos vendo. Ou seja, ver a si mesmo, no caso, captar a memória.

O romance retoma o tema da morte, já anunciado em Memórias Póstumas de Braz Cubas e Memorial de Aires. Mas acrescenta a condição da agonia. Aquela crônica e silenciosa espera pelo fim.

Obra: MEMORIAL DO FIM: A MORTE DE MACHADO DE ASSIS

Autor: Haroldo Maranhão

Editora:Marco Zero, 1991.

Maria Helena de Moura Arias

é jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual de Londrina.